Quinta-feira, Julho 09, 2009

A POESIA DE HERMES VIEIRA
(Antologia poética piauiense - J. Miguel de Matos. Editora Artenova. Ed.1974. Págs: 157 a 164)

Artur Passos, por desejo de meu coração, que vai abrir, com a pena já divinizada pelo trato das Letras, este canto de "Caminheiros da Sensibilidade", onde vai arrulhar, em trinados de tristeza e de alegria, o poeta folclórico Herdes Vieira, prata de casa, nascido, como João Ferry, na suave Valença, alentada pelas cantigas dolentes do Caatinguinha:
É preciso destacar, outrossim, que a história da literatura ocupa-se de obras concebidas e desenvolvidas por indivíduos identificados e largamente conhecidos, enquanto o folclore, pelo consenso unânime de seus cultores, estuda contos e lendas que não tenham autores individuais; que andam de boca em boca e possam ser qualificados em consonância com determinado número de categorias universais; que nada tenham, na contextura literária, que possa permitir dar-se-lhes autor individual ou particular, nem época, nem origem, e muito menos ainda arbitrária classificação em outras categorias literárias, formando categoria à parte. E se as narrativas de La Fontaine e as de outros tabulistas mais recuados, não obstante a conclusão moral que tenham sob o "véu diáfano da fantasia" e cujos personagens são irracionais que trocam idéias, contendem entre si, exercem atividades sociais e brigam à base do amor; ou se essas narrações de coisas imaginárias, como contos de sereias e de encantamentos, são, em parte, aceitas como matéria folclórica não é pelo conteúdo em si fantástico e puramente imaginário que contêm, mas por conterem, na essência, algo mais que simples fantasias; por guardarem como um relicário restos de crenças e costumes de outros tempos, não passando animais que falam, príncipes encantados e princesas mitológicas formosas como o despontar da manhã, transformadas em aves, às vezes em serpentes, e até em coisas inanimadas, de evidente sobrevivência de antigas divindades, objetos outrora de culto, que o cristianismo. Levou para o campo da superstição e mais tarde para os domicílios da literatura sendo, ainda, um liame que deve ligar e unir por fortes.laços morais o homem da era eletrônica ao dos tempos fabulosos de Prestes João e da Rainha de Sabá".
Fazendo, quase só, a apologia dos vates que caminham nesta obra, pois ela não tem sentido essencialmente critico, não me prendo, por força dessa derivação, ao estudo aprofundado do que o poeta produziu para a vastidão da Literatura, trazendo-o, antes, se vivo, ao conhecimento da geração atual, e, se morto à lembrança ingrata dos que ainda carregam nesta vida, como um Jesus redivivo, o pesado madeiro de seu sofrimento.
Hermes Vieira, a maior expressão da poesia folclórica do Piauí, se chama, por inteiro, Hermes Rodrigues Cardoso Vieira e tem o umbigo enterrado em Elesbão Veloso, município da Cidade de Valença. Nasceu a 23 de Setembro de 1911. É filho de Raimundo Rodrigues Cardoso Vieira e de Joaquina de Sousa Viana, ambos já aliviados, por bondade de Deus, do pesado surrão da Vida. Muito viajado, esteve alguns anos na Amazônia, onde bebeu, fartamente, em cantata com o "Inferno Verde", vivendo na ambiência trepidante e misteriosa daqueles matões Envios, o néctar que, mais tarde, na tropicalidade de sua terra natal, iria destilar para o acervo cultural de seu povo.
Como Giovanni Papini, Machado de Assis, João Ferry e tantos outros que a memória teima em esconder, Hermes Vieira, enfiado no ventre das noites, acolitado por livros de capas gastas e à vaga claridade de lamparinas fumacentas, é cultura autodidata, que, para algum anelado, pode constituir mancha na luz ofuscante que os seus pés vão deixando nos caminhos que percorre, sustendo a Lira e padejando o verso.

"0 Órfão Caboclo" abre este trabalho sobre o poeta de Elesbão Veloso, e o leitor vai sentir, mesmo que tenha o coração de pedra, que canto de amor há em seus versas, ditos na linguagem de quem sabe apenas sentir, na gramatização violenta e nativa que o caboclo, livre como um passarinho, vai deitando nas veredas, nas ruas, nas clareiras e nos bordéis improvisados, de que está cheio o sertão:


"Faz dez ano qui eu nasci,
e seis faz qui me intindi;
E dos seis então pra cá,
Sem perde nenhum insejo,
Noite e dia, alegre vejo
Tanta coisa d'incantá:

—Vejo os lago e vejo as fonte;
Vejo os morro e vejo os monte;
Vejo os campo e os matagá,
Os serrote e as colina,
Tabuleiro e as campina,
E as cascata saluçá;,

—Vejo alegre a passarada;
Vejo as báxa fulorada;
Vejo as lindras brobuleta,
Báxa a riba e báxa abáxo,
Sacudindo os leves cacho,
Das bunina e violeta;

—Vejo as nuves azulada,
Pur'os vento carregada
Neste ispaço co de ani;
Cumo um pranto de Maria,
VeJo as chuva clara e fria,
Lá do céu no chão cai;

—Vejo vim do chão moiado
Tudo quanto foi prantado
Pur'as mão do lavrada;
Também, vejo vim os matim,
Semiado cum carim,
Pur'as mão do Criadô;

—Vejo o Só morre dorado;
Vejo o céu azu istrelado;
Vejo a lua dispontá
Pratiada sobre as serra,
Istendendo cá na Terra,
As tuáia de luá;

Vejo as fria madrugada;
Vejo o branco d'arvorada;
Vejo a d'Arva aparece;
As manhã vejo raiá;
Vejo o dia clariá;
Vejo o Só de oro nasce;

—Vejo pai, vejo irmão,
Entre nos vejo união;
Vejo a casa onde nasci...
Mas o meu maia desejo
D'inxergá, porém num vejo,
É mamãi, qui eu nunca vi !"

Segundo Hermes: “Há uma lenda muito conhecida, notadamente nos arrabaldes do Nordeste, batizada pelo sabor do zé-povinho de "Mãe-da-Lua", "Chora-Lua" ou "Urutau". É uma ave noturna de canto dolente e entrecortado, dando, a quem tem o ouvido preso aos seus trinados de tristeza, a impressão de uma gargalhada melancólica de quem disfarça a acrimônia de uma angústia.”
Em "Lamentos de Mãe-da-Lua", Hermes Vieira, forjicando uma grafia adrede e cuidadosamente estudada, põe nos lábios do leitor a pronúncia real do caboclo, no seu desleixo lingüístico e na sua conhecida preguiça mental:



"No sertão, nos matagais,
Quando vai no céu a lua
E nas fontes cristalinas
O luar meigo flutua,

Um silêncio agreste e doce
Deixa tudo extasiado;
Pelo espaço enluarado.
E uma voz dolente ecoa

Essa voz que dissimula
Uma dor a gargalhar,
É notória no sertão
Pelas noites de luar.

É a voz da Mãe-da-Lua
A chorar o ausente esposo
Que, segundo afirma a lenda,
teve um fim misterioso.

Era um pobre lenhador;
Certa vez, indo lenhar,
Por motivo inexplicável,
Não voltou mais ao seu lar.

Mãe-da Lua, em desespero,
Coração angustioso,
Atirou-se pelas brenhas
A procura do esposo.

Andou muito, mas, debalde:
—O marido não encontrou,
E por isso nunca mais
A cabana ela voltou.

E depois, num ramo nu,
Sob um manto de luar,
Outras aves encontraram
Mãe-da-Lua a soluçar.

Não querendo a infeliz ave
Pelas outras ser zombada,
Logo o pranto simulou
Numa triste gargalhada.

E num galho, solitária,
Mergulhada no luar,
Ela ainda continua
Com seu triste gargalhar.

Como oculta a Mãe-da-Lua,
Gargalhando os seus tormentos,
Muitos riem, assim também,
Ocultando os sofrimentos".

A pavorosa seca de 1932, com seu manto de desgraça, arrastou para a miragem do vale do Itapicuru, que corta as entranhas ubertosas do Maranhão lírico e sentimental, dois personagens que inspirariam, no correr dos dias, ao poeta folclórico Hermes Vieira, versátil e fecundo, a sua mais imortal produção literária. Chamavam-se esses dois personagens de Hermes: Piroca e Loló, ele vindo de Pernambuco e ela do Rio Grande do Norte. Apaixonados ao primeiro raio do olhar esbraseado pela paixão, amaram-se no primeiro encontro, ali adiante o Itapicuru coleando e gemendo no tumulto de suas águas. Mas o destino, pela mão dos pais de Loló, meteu-se entre aqueles dois jovens corações para angustiá-los. Piroca, distante de sua bem amada, metia-se na cachaça —"água que-gauinumbi não bebe"—para afogar as tristezas que a saudade de Lolô ia Ihe cravejando no coração. Certo dia— lá vem o certo dia de cada vida! — Piroca, distendendo a vista pelas margens do Itapicuru, vislumbrou, na face inquieta das águas, a figura morena de sua amada frisando a linfa com as diabruras de seus dedos, Loló, afogueada pelo olhar ardente de Piroca e querendo fugir da calidez que Ihe incendiava o coração apaixonado, faz das águas um imenso lençol para esconder a beleza e a virgindade de seu corpo.
O corpo inteiramente engolido pelas águas do Itapicuru e a cabecinha aparecendo vagamente à flor da corrente liquida, Loló provoca o diálogo que Hermes Vieira batizou com o nome de "A Falsa tara":

—"Seu Piroca, eu vou já contá papai,
Qui você, de marcado, me viu nua!
— Tá brincando, Lolô, qui tu num vai
Ispaiá tá conversa pula rua!...

—Eu num vou?!... Pois num vá se apreparando
Pra se te cum papai ou cá mamei!...
Num vá, não!... Quê qui que você oiando
Eu dispida, seu nojento, tomá boi?...

—Ai, Loló, vou contá pruquê cá vim,
Qué pratu num cuidá qui foi mardade...
Apois bem, todo o causo foi assim...
Tenha carma e me sunte esta verdade:

Muitos conta qui sai dos sêi das água,
Certa moça tão lindra de incantá,
Qui se chama de iára ou de mãe-dágua,
E tem ela um palaço singulá.

No momento qui sai do seu palaço,
Se abiserva qui as água e os peixe pára;
Lá de fora se cala logo os passo;
E grita os pescada: "Lá vem a lára! "

Ela, intão-se, aparece bem formosa
Cum seu corpo bem arvo e toda nua...
Dê pru vista no céu, quando sodosa,
Vem subindo, subindo, a branca Lua...

Tem siás face tão lindra cumu o dia .
Quando rasga da noite a preta sáia;
E seus óio tem tanta maravia
Cuma d'Arva nos máre quando ráia.

Seus cabelo são grande cumo os fio
Qui se tira dos pé de caruá;
E purisso, somente, num tem frio,
Pois faz deles lençó pra se imbruiá.

Tem seus láibos fazidos de carmim,
Perfumados de amo, de sedução;
Seu prefume é de frô de bugarim,
Das abrida nas noite de verão.

E siá voz é tão doce cumo o mé
Qui se incontra nos favo do urussu;
E arguém diz qui de lindra imita inté
Cum o sedoso canta d'uirapuru.

Seus dois sai são dois fruto num só gái,
Dos qui fica agrudado na madêra,
Qui balança, sacode, mas num cái,
Mas são fruto qui mermo verde chora...

E ela, intão, purriba assim da frô,
Da frô dágua, se fica sem move;
Desse jeito ela atrai o pescada,
Qui vai indo im seu rumo sem querê.

Foi purisso, Lolô, qui mi atrivi
Incostá mia canoa onde tu tava,
Cuidando qui tu era (nunca vi!)
A Mãe-dágua, Lolô, qui mi chamava...

E tu gosta... Piroca, deu, tu gosta?
—Eu ti juro, Lolô, pur todo o santos
—Pois, então, toda a tarde tu incosta
Tua canoa, benzim, neste recanto. . . "

A poesia folclórica, por sua originalidade, pelo sabor ativo de sua narração, pela agressividade da linguagem, pela ardência do verbo matuto, tem o gosto daquela ceia servida no Saco da Braba, destes cafundós do Piauí, nos versos matutos de Hermínio Castelo Branco:

"Cada qual, com sua faca,
de cócras junto à panela,
foi tirando com a cuia
que servia de tijela,
e despejando a farinha
na coalhada, dentro dela".

"Misturando a carne assada,
gorda, frescal e cheirosa,
todos ficaram contentes
com a ceia apetitosa:
nem no Céu nunca se viu
comida tão saborosa".
Não seria, narrando em rápidas pinceladas a poesia folclórica de Hermes Vieira, que este autor olvidasse o sentido nativo dos versas do poeta de Valença, tendo no coração a imagem da terra natal, osculada no inverno pela água das chuvas que despencam do Céu fragmentadas e cristalinas, e abrasada nos estios pelos raios de fogo do sol.
E o soneto "Piauí" saiu da forja do poeta, nestes versos que o coração não pode reter na sua sensibilidade e nos seus arcanos:

"Teus montes, as montanhas e as colinas;
Teus vales ubertosos, florescentes;
Teus campos matizados, sorridentes;
Teus brejos fabulosos de águas frias;

Teus rios, tuas fontes cristalinas;
Teus lagos pequeninos, transluzentes;
Teus bosques perfumados, viridentes;
Teus belos chapadões e as campinas;

Teus ricos e pomposos estendais
De flores e de frutos naturais;
De lindas borboletas multicores;

De ledos e canoros passarinhas,
São tudo para mim dourados ninhos,
São bálsamos que acalmam minhas dores!"


Este é Hermes Vieira que Valença, pela data de Elesbão Veloso, deu ao Piauí. Um presente de raro valor, uma luminescência de ofuscante brilho, uma luz de embevecente claridade!

Segunda-feira, Setembro 15, 2008

97 ANOS DE NASCIMENTO DE HERMES VIEIRA

O poeta Cariri do Cordel, pseudônimo de Uirapuan Vieira, residente em Fortaleza-CE, é filho do saudoso poeta folclorista e indianista Hermes Vieira. Através deste seu SERTÃO DE BOA FÉ, presta homenagem ao velho pai, pela passagem de seus 97 anos de nascimento –23/09/1911- Hermes faleceu em Fortaleza, em 17/07/2000 e está sepultado em Teresina-Piauí, onde viveu parte de sua vida. “O poeta está para o Piauí como Patativa do Assaré para o Ceará”.

SERTÃO DE BOA FÉ
Autor: Cariri do Cordel

Quando canta o sabiá
Na palha duma palmeira
Seu canto me faz lembrar
A rica tarde fagueira
Lá nas matas do juá
Do gato maracajá
Sertão de Hermes Vieira.

Lembro-me da seriema
E do grito da acauã
Despertando outras aves
Em busca do amanhã
Nas Chapadas de piquí
No sertão do Piauí
Esse rico talismã.

Dos baixões e matagais
Do cantar da juriti
Das lagoas e jaçanãs
Frango d'água e paturi
Do soco e do carão
Com seu canto em refrão
Nos afluentes do Poti.

Do berro da vaqueirama
Do famoso alazão
Daquele vaqueiro astuto
Nas quebradas do sertão
Que enfrenta a mameleira
Tocaiando pra trincheira
O perverso barbatão.

Da paçoca no Nordeste
Sempre feita no pilão
Com farinha de mandioca
Preciosa refeição
Da carne assada de tatu
Peba, paca e caititu
Com mistura de baião.

Dessas noites ainda me lembro
Da coruja e caburé
Rasga-mortalha e mãe-da-lua
Da cabocla bem me qué
Que enfeitiça o coração
Acalmando o valentão
No sertão de boa fé.
Fortaleza, de setembro de 2008
Mensagens para: cecordel@yahoo.com.br

Quarta-feira, Maio 28, 2008


DEMÓCRITO DUMMAR
AGORA ESCREVE
PARA O POVO LÁ NO CÉU
(Poetas do Cecordel)

No ano 2008
Em 25 de abril
Numa tarde ensolarada
O destino em seu perfil
De transmitir desengano
Foi outra vez mais hostil.

Era sexta-feira à tarde
Tranqüilo fim de semana
O destino joga as cartas
Sussurra a voz soberana:
Vão buscar Demócrito Dummar
E no céu se canta hosana.

Pra família e seus amigos
A notícia foi chocante
Não havia explicações
Como algo alucinante
Onde a dor com o sentimento
Muito mais é torturante.

O fato gerou notícia
Toda imprensa consternada
Pelo adeus ao jornalista
De vida exemplificada
Que fez de seu Grupo O Povo
Uma imprensa renovada.

Pois o sonhador partia
Mas deixou edificado
Seu sonho que se reflete
Na riqueza de um legado:
Uma imprensa pluralista
Pioneira em todo Estado.

Seus 45 anos
De jornalismo perfeito
Com ética e ideologia
Celebrou cada conceito
No doutrinar das visões
Do estado de direito.

Foi fazedor de jornal
Que narrava rica história
Esperava sempre o tempo
Para rica trajetória
Um pensador otimista
Um filósofo de glória.

Soube interpretar os fatos
Do nosso cotidiano
Com sua força criativa
Seguia seu novo plano
E a empresa assim crescia
Afastando desengano. (Guaipuan Vieira)

Dummar homem de visão
Da arte e literatura
Fez brotar do coração
A mais perfeita ternura
Ao construir algo novo
Pondo no Jornal O Povo
O burilar da cultura.

Na sua doçura e calma
Traçava com paciência
Os exercícios da alma
Com a prática da ciência
E colocava em seu plano
A essência do ser humano
Maior valor da existência.

Amigo e bom companheiro
Um homem trabalhador
Muitas vezes pioneiro
No seu modo inovador
E em tudo que ele tocava
Uma nova visão dava
Pra coisa ter mais valor.

Hoje o céu iluminado
Tem um outro colorido
Pois tendo Deus ao seu lado
Dummar se faz renascido
E numa só oração
Os cearenses o farão
Nunca mais ser esquecido. (Lucarocas)

Era um fazedor de sonhos
Disse Eliomar de Lima
Dedicação e humildade
Fizeram dele pra cima
Todos pra ele eram irmãos
Eis aqui a melhor rima.

Fátima Guimarães disse:
Era um idealizador
Viviane por sua vez
Tinha-o como um vibrador
Pra Tânia ex-colega minha
Generoso e encantador.

Um homem que conseguia
Sorrir só com o seu olhar
É o que Dalviane Pires
Soube bem interpretar
Seu semblante era uma fonte
De uma paz familiar.


Diz Rita Célia Faheina
“Ele sabia cativar”
E que nem um adolescente
À mulher sabia amar
E para Dilson Alexandre
Era um colega exemplar.


Sua marca era a ousadia
De compreensão atual
Prova que abriu espaço
Pro “Crítica Radical”
Disse assim Maria Luiza
Nas páginas do jornal.

Pelo fazer jornalístico
Ele era apaixonado
Na direção do jornal
Era o mais entusiasmado
Disse Luizianni Lins
No jornal e ficou gravado.

Mas de Demócrito Rocha
Quem fala agora sou eu
Foi artista sonhador
Que além do tempo viveu
Se seus sonhos permanecem
Demócrito não morreu.

Contemplando algumas fotos
De seu Demócrito Rocha
Constata-se que seus passos
São como a mais viva tocha
De convicção e sonho
Que pro jornal desabrocha. (Gerardo (Pardal)

Seu avô Demócrito Rocha
Com importante projeto
Fundou o Jornal o Povo
Fez um sonho ser concreto
Pois essa empresa cresceu
Liderada por seu neto.

Trabalhou com muito afinco
Sem perfil para disputa
Mas pra fazer uma imprensa
Que hoje o povo desfruta
Por ser participativa
A marca da grande luta.

Partiu deixando saudades
Mas seu exemplo é quem fica
Porque viveu para a imprensa
E deixou a melhor dica:
Para quem quer ter sucesso
Só consegue quem pratica.

Jornal Rádio e Tv
Conquistaram seu direito
E muito mais crescerão
Seus filhos têm o respeito
De manter nesses veículos
Sua grande marca e conceito. (Edson Neto)

Perdemos um grande homem
De valor fenomenal
Que muito contribuiu
Para nossa capital
Como o maior integrante
Da imprensa nacional.

O nosso jornal O Povo
Ficou sem mais uma tocha
Se foi o seu presidente
Agora a notícia acocha
Em conseqüência da perda
Do grande Demócrito Rocha. (Jotabê)

Estamos de sentimento
É momento de tristeza
Toda a família O Povo
Precisa de fortaleza
Mas a obra de Demócrito
Está viva com certeza.

Portanto vamos lembrá-lo
Somente com alegria
Para o grande jornalista
Nossa simples poesia
Lá na casa de Deus mora
Nos veremos algum dia. (Paulo de Tarso)


No meu simples português
Fazer verso popular
Para o Demócrito Dummar
Nem palavras vou encontrar
Pra mostrar sua grandeza
No saber comunicar.

Esse grande jornalista
No Ceará semeou
Simplicidade e carisma
Por onde foi e passou
Ficando sedimentada
A essência que ele deixou.

O Ceará tem orgulho
Desse grande cidadão
Que soube ver nas pessoas
Sangue, nervo e coração
Tratando-as de “filho” ou “filha”
Sem a menor distinção.

O povo e o “O POVO” ficaram
Sentindo muita saudade
À família os sentimentos
De todos desta cidade
Dos poetas cordelistas
A nossa afetuosidade (Vânia Freitas)


( Abril/2008 -Edição Cecordel/Fundação Demócirto Rocha-Abril/2008)

e-mail: cecordel@yahoo.com.br

visite-nos: http://www.cecordel.cjb.net/







Sexta-feira, Maio 16, 2008



Os amantes do forró pé-de-serra, da viola nordestina, causos de caboclo e da poesia matuta ganham mais uma opção de entretenimento radiofônico. O programa "Canto Sertanejo", da Pitaguary AM (1340 kHz), aos sábados, às 11h. Tem a apresentação do poeta popular Guaipuan Vieira o Dr. do Forró.
Contato: (85)3382.2222 -Maracanaú(CE), região metropolitana da grande Fortaleza.

Quinta-feira, Abril 03, 2008

TERESINA NO PASSADO


Por Guaipuan Vieira
de Fortaleza(CE)

No final de maio de 1996, retornei a Teresina, (foto-Praça Pedro II, 1960) integrando a Comissão de Intercâmbio Cultural de Fortaleza, a convite da Academia de Letras Vale do Longá. Ficamos hospedados no Hotel São José, à margem direita do rio Parnaíba, no coração da Verde Capital. Além da Ala Feminina da “Casa de Juvenal Galeno”, estavam o diretor desta, o escritor Alberto Santiago Galeno e o poeta Paulo de Tarso. Alberto me pedira para levá-lo ao Mercado Central, pois desejava comprar um chapéu de vaqueiro feito no Piauí. Eram quinze horas de sábado. O silêncio pairava no centro, devido o final de semana. Mesmo sabendo que àquelas horas seria impossível encontrar o mercado aberto, tive que atender o pedido.
Alberto, que caminhava a passos lentos e, cambaleando, estava calado, mas observador. Paulo, que nos acompanhava, admirava os velhos casarões e o rio que solitário descia entrecortado pelas coroas, indagou a Alberto:
- Doutor, o senhor conhecia Teresina?
Ele, sem pensar, duas vezes respondeu:
- De passagem. Guaipuan não nos conta a sua história.
A responsabilidade pesou-me nos ombros. Calado, como menino repreendido, não sabia por onde começar. As recordações refletiam à mente. Mas uma luz me surgiu dos anos 60. Tive que superar o desafio, e conjugar costumes, tradições e modos de vida de um povo que, embora embriagado pelo vício e prostituição, deixara página de sua história, vez por outra folheada por algum pesquisador .
- Isso aqui foi a famosa Palha de Arroz. O nome vem das torrefações.
Nesse meio funcionou o baixo meretrício, o Q.G. era o cabaré Barrinha, conhecido por “tabaco”, freqüentado pelos “porcos-d’água”, que eram os ajudantes das embarcações. Paramos um pouco, sob a sombra de oitizeiros, direcionados para o sul, a uma distância de 200 metros. Articulando, mostrei-lhes onde funcionava a usina termelétrica, que fornecera energia para toda a cidade, até a década de 60, substituída por uma caldeira a diesel, vinda de Alagoas, não esquecendo seus ritmados apitos como de uma maria-fumaça, que até as 21 horas servia-nos de relógio, quando num toque de despedida saudava a noite, que paulatinamente ia em busca do novo dia. Nessa época, o rio Parnaíba era navegável.
De longe também se ouvia o rugir dos vapores, lanchas e alvarengas vindos do sul do Estado, transportando mercadorias e passageiros, em direção ao Porto, que ficava limitando a Praça da Bandeira, por onde iremos passar. Recomeçamos a caminhada. Ao cruzarmos a rua Paissandu, fizemos outra parada. Não poderia esquecer de citar que fora o núcleo dos tradicionais cabarés, como “Estrela”, “Fascinação”, “Imperatriz”, “Nove Horas”, “Gerusa”, “Raimundinha”, “Joana de Paiva”, entre outros. Subimos na rua em direção à Praça Pedro II. Na mente conduzia a surpresa que Alberto tanto esperava. Uma outra parada não fazia mal. Afinal, procurava descrever Teresina no passado, mostrando-lhes os pontos que serviram de concentrações desses personagens.
-Onde estamos? Indagou-me. Olhe, nessa casa comercial, “Rádio Ion”, foi o bar do Zé Cazuza. Às 12 horas de uma sexta-feira de 1962, o tenente Wanderley bebia aqui. Ao perceber a passagem de Zezé-Leão, o chamou. Depois de uma ligeira conversa, lembrou-lhe que em certa ocasião tinha-o prendido. Zezé, calmamente, embora entrecortado do insulto, perguntou-lhe se ia demorar no bar. Ele, ufano de autoridade, respondeu-lhe que sim. Zezé, enfatizou:
-Voltarei logo. Em questão de 20 minutos, o lúgubre estúpido, armado com um revólver 38, mudava o ritmo da cidade. A rádio Pioneira, que funcionava na rua Senador Teodoro Pacheco, aqui, próximo, em primeira mão, divulgou o acontecimento em reportagem exemplar de Carlos Said. No dia seguinte, as manchetes dos principais jornais: “ZEZÉ-LEÃO MATA TENENTE WANDERLEY E FOGE.”
- Ah, foi assim! Sua fama chegou no Ceará, exclamou Alberto. Paulo, aproveitando a deixa, nos contou que seu tio-avô, Cel. Domingos Gomes de Freitas, que residia em Tauá CE), tinha um criado que era o responsável pela compra de mantimentos (gêneros alimentícios) da Casa Grande. Segundo seu avô, certa ocasião, o criado, chegando de viagem, já na entrada do município, fez uma ligeira parada numa venda para beber uma pinga. Ao pagar a dose, foi surpreendido pois já estava paga. Ele então perguntou ao dono da venda o nome do desconhecido para agradecer. Esse, ouvindo, respondeu-lhe:
“José de Área Leão
A onça sussuarana
das matas do Piauí.”
- E você quem é, caboclo?
Sem bater pestana, que nem um bom improvisador, informou-lhe:
“Eu sou um cachorro preto
da zona do cariri
acuador de onça sussuarana
das matas do Piauí”.
E até logo!!!
Zezé baixou a cabeça, bebeu outra pinga e exclamou: “muito bem!” Um dos seus seguranças indagou-lhe: “Pega o homem, coronel?!
-“Não. Cachorro que acua onça é respeitado.”
Continuamos a caminhada. (foto: Alberto,Paulo e Guaipuan) Logo estávamos na Praça Pedro II. Ali, para mim, foi um pesadelo. Não controlava as idéias, que se misturavam com as lembranças, dificultando concatenar o raciocínio, porque a Praça continuava sendo o cordão umbilical dos que edificaram a invejável história da terra.
De um lado, o Centro de Artesanato, guardando consigo lembranças do velho quartel da polícia militar. Do outro, o Cine Rex, solitário, que nem ancião, nem parecia que vencera os seus concorrentes: Cine Guarany, Olímpia, São Luís, Rio Branco, entre outros. Um cartaz lembrava Alfredo Ferreira que foi o fundador do cinema em Teresina, e o primeiro filme exibido, que era norte-americano e falado, tinha como título: “Doce como Mel.”
O Theatro 4 de Setembro, guardião da cultura, silencioso, trazia consigo recordações da luta ferrenha que travou para se desligar do cinema, para ser o que é: palco de espetáculos teatrais. Ao lado, a Galeria das Artes, num oculto quadro, descrevia o saudoso Bar Carnaúba, cercado de artistas e intelectuais. As horas corriam. Alberto, mergulhado no impressionismo, esquecia a compra do chapéu. Paulo não perdia nada da explanação. Anotava, na agenda, os subsídios para a história do município.
Guia turístico, contador de história ou causos. Sei lá quem eu era. Prosseguimos. Seus
entusiasmos aumentavam. Embora quisesse parar a narração, não podia. Sempre algo chamava a atenção.
O silêncio recordava-me os tempos idos, quando menino, de calça curta, procurando remédio nas farmácias Santo Antônio, Lili e São Pedro, de Pedro Vasconcelos. Não encontrando, ia direto à farmácia “Coleta’, onde Jaime da ‘botica” fazia a manipulação de medicamentos. Naquele tempo era assim. Com essa reflexão sobre o passado, logo chegamos à Praça Rio Branco. Estava a esmo. Não parecia o logradouro de concentração de poetas populares, da ceguinha Maria Viana, no órgão, interpretando canções bregas; de aposentados driblando a velhice, tentando afeiçoar a nova geração. A brisa fria da tarde os enchia de indagações, estava num árduo ofício, não podia dissolver fatos do folclore teresinense .
-Nesse prédio da Caixa Econômica, funcionou o comércio do Carcamano, à noite tinha uma preta velha vendendo manuê; a fatia do bolo custava um tostão, e media um palmo. Tornou-se admirada pelo pessoal de vida noturna, através dos improvisos de propaganda:

“Chega gente, está na hora
Compre logo o manuê,
Compre mesmo, sem demora.

Manuê da preta velha
Tem segredo de essênça,
Inda mais com bom café
Muda até sua presença .”

Observa-se, de certa forma, que a cultura popular, destacando-se a poesia, nasce da necessidade de sobrevivência dessa gente. A não importância desses fatos contribui veementemente para o anonimato do autor, o que aconteceu com modinhas, adágios e alguns provérbios.
-Com certeza, enalteceu Alberto. Tive que ser breve nas citações, haja vista que algo mais nos aguardava. Estamos na Praça da Bandeira.
Recorda-me o pequeno zoológico, a feira dos pássaros e a do troca-troca. Nessa época chamava-a de bacia, por formar um círculo e ser de baixo relevo. Deu guarida a grandes circos, como Garcia, entre outros. Hoje, as grades que a cercam, nos reflete a ligeira impressão de que é prisioneira, e que nada tem de majestosa!
Vê-se silente, concentra suas atenções no Teatro de Arena, palco dos acontecimentos culturais, de ação preservadora das tradições da terra.

Veja “Domingos Fonseca”, do alto, sussurra a poética sem jaça, em louvação aos poetas que
versejam “sua poesia”, nos Festivais de Violeiros do Nordeste.
Eram 17h30min, os pardais começavam a harmoniosa sinfonia sobre os frondosos oitizeiros, em contemplação a mais um dia que se findava. Apressamos os passos, cruzamos o Mercado Central, logo saímos no desativado Cais do rio Parnaíba. De retorno ao hotel, oportunidade em que falei sobre o Velho Monge, das extintas carrancas e dos banhos aos domingos nas piscosas águas, onde as coroas são atraentes praias, que desfilam preciosas sereias, musas inspiradoras que nos confortam a alma, principalmente quando se tem um bom anzol. Alberto, satisfeito, sorriu. Paulo ficou ansioso para conhecê-las. Seguimos para o hotel, contemplando o pôr do sol, rica beleza natural. Alguns minutos, como se fora beber água, os deixei à vontade. Próximo ao hotel, Alberto exclamou:
-Gostei bastante do passeio e da sua narração. Só me falta o chapéu!

TERESINA

Ah, Teresina !
Que fascina
de encantos mil.
Morena, mãe gentil,
que se bronzeia
no sol multicor,
enchendo de mais amor
o coração de sua gente.
Ah, Teresina !
extasie a suave difusão
ao luar,
aos bosques,
que faz seus poetas versejar
sua beleza,
as sutilezas
invisíveis desse mistério.
Ah, Teresina !
da azulada esfera,
gera sua virtude
de dileta terra.
seu povo agradece,
por ser majestosa.

(Teresina,20/04/80 - aos 17 anos de idade)

Contato com o autor: guaipuanvieira@yahoo.com.br

















Sexta-feira, Janeiro 11, 2008

MÚSICA E POESIA REGIONAL: O NORDESTE NA RELAÇÃO ENTRE GEOGRAFIA E ARTE

Gilberto Ricarte Martins - IESA/UFG / gilbertoricarte@yahoo.com.br

Luiza Helena Barreira Machado - IESA/UFG / -hyllena@yahoo.com.br

Gervásio Barbosa Soares Neto - IESA/UFG / legeographe@pop.com.br

Alecsandro J.P. Ratts (orientador) - IESA/UFG / ratts@iesa.ufg.br


Introdução

Os estudos geográficos vêm incorporando o estudo das manifestações artísticas, especialmente as literárias e musicais (MONTEIRO, 2002; HASEBAERT, 2002; FERNANDES, 1992)[2] e, por conseguinte abrem perspectivas para a abordagem denominada de Geografia Cultural (ou Humanista). O presente trabalho pretende mostrar uma analise de músicas e poesias consideradas regionais – pelo tema, pela procedência dos compositores e pela recepção que delas faz o mercado e o público em geral.
As regiões brasileiras, como objeto de análise geográfica e como entidades político-administrativas apresentam, na maioria das vezes, grandes desigualdades, focalizadas por critérios predominantemente geoeconômicos (CORRÊA, 1997). Uma abordagem da noção de região que aponta para as relações subjetivas que os seres humanos estabelecem com o espaço (FRÉMONT, 1974) permite falar em identidade regional, tendo em mente um jogo de permanências e recriações culturais.
Os seres humanos constroem uma relação de proximidade ou afetividade, afastamento ou preconceito com a idéia de “região” em que se destacam a paisagem, a linguagem, a culinária e a cultura popular. Esses elementos comparecem na chamada “música regional” e na “literatura regional” que também inclui a crítica social, a insatisfação política e a situação de vários segmentos, a exemplo dos migrantes (os que comparam a vida em mais de uma região).
A pesquisa se volta para a análise de poesias e letras de música que retratam a região Nordeste, bastante discutida e sedimentada no debate público enquanto lócus da necessidade, terra de agruras e de belezas naturais, sob o controle de políticos conservadores, em contraste com um povo ora passivo, ora forte[3].

Música regional, cultura e mercado

A relação entre música e regionalismo passa pela intervenção do mercado fonográfico, destinado sobretudo ao rádio e à TV. Nesse sentido, vemos a chamada “música caipira” reaparecer como citação estética na “música sertaneja”, no vestir, no cantar e nos temas das canções. É necessário dizer que isto já acontecera no âmbito dessa mesma “música caipira”: intérpretes individuais, duplas e grupos inteiros apareciam vestidos de “pessoas do campo”, portando insígnias de um mundo rural que havia se transformado (MARTINS, 1975; NEPOMUCENO, 1999), caso explícito da idéia de que passamos a evidenciar a tradição quando estamos na iminência de perdê-la.
Por outras vias ainda em tempos de discos de vinil e de constituição do rádio como meio de grande audiência, delineou-se no arco da Música Popular Brasileira a denominação de “música regional”: compositores e compositoras, cantores e cantoras, oriundos das classes populares e médias revisitam o mundo rural, o interior do país – o inner country da língua inglesa e certamente o pays da língua francesa – e constroem suas próprias interpretações da cultura que, por sua vez, contribuem para o amálgama das identidades territoriais (HAESBAERT, 1999).
As décadas de 40 e 50 do século XX foram marcadas pela emergência da “música nordestina”, de ritmos como baião, xote, xaxado e forró[4]. Nomes como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, ganham visibilidade no mercado fonográfico e no rádio[5].
A literatura dita “regional” é menos marcada pela intervenção do mercado, mas sua rotulação e seu conteúdo, seguem os passos do que afirmamos para o campo da música. Passamos agora, como resultado preliminar, para a análise das canções e dos poemas.

Música, poesia e a relação subjetiva com a região

A região Nordeste é a região do Brasil que mais se discute em termos de música e literatura regionais, diversos discursos já foram feitos em relação às desigualdades, esses muitas vezes são manifestações que visam interesses próprios, em geral das elites (CASTRO, 1992). O fato de que o Nordeste precisa ser mais bem atendido comparece nas canções analisadas.
“Precisamos restaurar a interpretação poética na Geografia”, nos alerta Haesbaert (p.157) e para complementá-lo é importante salientar que para um conhecimento completo, do objeto de estudo, é necessário o estudo de todas as fontes de informação sobre o mesmo. As manifestações culturais podem muito bem trazer informações relevantes refletindo a identidade de determinada região. Dentre tantas manifestações culturais, começaremos pelas músicas, que serão a seguir analisadas objetivando nas letras a identificação de elementos naturais, econômicos, culturais, sociais que podem ser considerados atributos da região.
Na toada Vozes da Seca, gravada inicialmente em 1953, Luiz Gonzaga e Zé Dantas mostram que o Nordeste não é apenas uma parte do país que se destina a receber ajudas (esmolas). Ao contrário, os compositores têm o objetivo de mostrar que existe um grande potencial de produção, o único empecilho para desenvolve-lo é a falta de água e de vontade política:
Seu doto os nordestino / Tem muita gratidão / Auxilio dos sulistas / Nessa seca do sertão / Mas doto uma esmola / A um homi qui é são / O lhi mata de vergonha / Ô vicia o cidadão

É
por isso pidimos / Proteção a vosmicê / Para as rédeas do poder / Pois o doto dos vinte estados / Temos oito sem chover / Veja bem, quase a metade / Do Brasil ta sem comer

Dê serviço a nosso povo / Encha os rios de barrage / Dê comida a preço bom / Não se equeça a açudage / Livre assim nóis da esmola / Que no fim dessa estiage / Li pagamo até o juro / Sem gastar nossa coragem

Se o doto fizé assim / Salva o povo do sertão / Se um dia a chuva vim
Que riqueza pra nação / Nunca mais nois pensa em seca / Vai dar tudo nesse chão / Cumo vê, nosso destino / Messe tem vossa mão

Outra canção que nos mostra uma grande afeição às “coisas do lugar” é Estrada de Canindé, composta por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, em 1950, onde apresentam detalhes da paisagem do sertão que somente podem ser observados no ritmo lento do caminhar a pé, sem a preocupação materialista que move a sociedade moderna:
Automóvel lá nem se sabe / Se é homem ou se é muié / Quem é rico anda em burrico / Quem é pobre anda a pé
Mas o pobre vê nas estradas / O orvaio beijando a frô / Vê de perto o galo campina / Que quando canta muda de cor
Vai moiando os pés nos riacho / que água fresca, Nosso Senhor!
Vai oiando coisa a grané / Coisa que pra mode ver / O cristão tem de andar a pé
Ai, ai, que bom / Que bom, que bom que é / Uma estrada e uma cabocla / Com a gente andando
a
pé Ai, ai, que bom / Que bom, que bom que é / Uma estrada e a lua branca
No sertão de Canindé

A valorização de mínimos detalhes faz a felicidade do morador, onde parece ser diferente o tempo (cronológico), pois a vida sem tanta correria, sem o chamado “stress”, que atormenta tanto a vida de todos hoje em dia. Sentir falta do passado todos sentem, expressar esse tipo de sentimento é o mais difícil, pois notamos que um simples hábito alimentar pode causar sentimentos de insatisfação e gerar, às vezes, até uma aversão ao local onde se está vivendo, tudo por causa da saudade.
Como dito anteriormente, as relações que o avanço do capitalismo trouxe, pode causar uma espécie de “saída forçada”, não só as relações capitalistas, como também alguns fatores da natureza, como a seca, a enchente e outros fatores que influenciam a vida.
O poema “Vaca Estrela e Boi Fubá", de Patativa do Assaré que foi musicado pelo próprio autor (ASSARÉ, 1978, p. 324), relata a história de um nordestino que deixa sua terra natal por causa da seca. Pela necessidade de sobrevivência vai para uma terra estranha, onde sente muita falta do seu lugar demonstrando que não se acostumou ao novo contexto:
Seu doutor, me dê licença / pra minha história contar / Hoje eu tô na terra estranha, / é bem triste o meu penar / Eu já fui muito feliz / vivendo no meu lugar / Eu tinha cavalo bom / e gostava de campear / Todo dia eu aboiava / na porteira do curral / Eeeeiaaaa, êeee Vaca Estrela, ôoooo Boi Fubá
Eu sou filho do Nordeste / não nego meu natural / Mas uma seca medonha me tangeu de lá pra cá / Lá eu tinha o meu gadinho, / não é bom nem imaginar / Minha linda Vaca Estrela e o meu belo Boi Fubá / Quando era de tardezinha/ eu começava a aboiar / Eeeeiaaaa, êeee Vaca Estrela, ôoooo Boi Fubá
Aquela seca medonha / fez tudo se atrapalhar / Não nasceu capim no campo para o gado sustentar / O sertão esturricou, / fez o açude secar / Morreu minha Vaca Estrela, / se acabou meu Boi Fubá / Perdi tudo quanto eu tinha, nunca mais pude aboiar / Eeeeiaaaa, êeee Vaca Estrela, ôoooo Boi Fubá
Hoje nas terra do sul / longe do torrão natal / Quando eu vejo em minha frente / uma boiada passar / as correm dos olhos / começo logo a chorar / me lembro da Vaca Estrela / Me lembro do Boi Fubá / com saudade do Nordeste / dá vontade de aboiar / Eeeeiaaaa, êeee Vaca Estrela, ôoooo Boi Fubá

Quando os autores se referem à saída do sertanejo para a cidade, no primeiro paragráfo de “Vaca Estrela e Boi Fubá” e no último de “Último pau-de-arara”, observa-se o elemento histórico que grande parte da população nordestina vivenciou: a migração rural. Outro ponto evidenciado nas músicas é a afetividade com o lugar e a região, o orgulho com sua terra, mesmo sabendo que essa não o pode sustentar. E ainda o carinho pelos animais, apego ao seu “patrimônio”, mas que é visto também quase que personificado.
Nessas canções, ainda pode-se observar a estiagem como um elemento climático característico do Nordeste que nos remete à chamada “indústria da seca” que na música referida não é tratada diretamente, mas mostra as suas conseqüências aparentes: a vida sofrida dos sertanejos por descaso da elite e usurpação política.
Dentro dos atributos culturais encontram-se o Pau-de-arara e os termos seguintes: esturricou – secou; aboiar – chamar a boiada; medonha – grande; e tangeu – tocou para a frente (a exemplo do que se faz com o gado). Algumas dessas palavras e expressões são encontradas em outras regiões, mas constituem uma característica forte do sertão nordestino. Nos atributos naturais destacamos o Sertão e o Cariri – área caracterizadas pelos domínios morfoclimáticas e vegetacionais, mas âmbito da ação humana.
Ainda se pode encontrar atributos econômicos na composição que se explicitam pela posse da vaca Estrela e do boi Fubá. Identificamos igualmente os atributos sociais expressos na dificuldade de adaptação do retirante em outro lugar e/ou no sofrimento de estar ali longe de seu lugarzinho (torrão natal/região querida). Outros pontos relevantes dessa canção, a exemplo o Nordeste agrário e o vaqueiro como personagem principal, também caracterizam um modo de vida que é recorrente na música “nordestina”.
Para mostrar um pouco da afetividade do ser humano com o espaço regional podemos observar a canção composta por Jorge do Altinho, gravada em 1984, denominada Petrolina - Juazeiro.
Nas margens do São Francisco nasceu a beleza / e a natureza ela conservou / Jesus abençoou com sua mão Divina / pra não morrer de saudade vou voltar pra Petrolina
Do outro lado do rio tem uma cidade / que na minha mocidade eu visitava todo dia / atravessava a ponte, mas que alegria / chegava em Juazeiro, Juazeiro da Bahia
Ainda me lembro que no tempo de criança / esquisito era a carranca e o apito do trem, / mas achava lindo quando a ponte levantava / e o vapor passava no gostoso vai e vem
Petrolina, Juazeiro / Juazeiro, Petrolina / todas as duas eu acho
uma coisa linda / eu gosto de Juazeiro / e adoro Petrolina

Jorge de Altinho nos dá um exemplo de topofilia (Bachelard apud Castro, 1992), de afeição e identificação com duas cidades que podem ser representativas de todo o Nordeste. O compositor/intérprete menciona o rio São Francisco, um importante fator para a vida local e regional, se identifica como baiano – pernambucano ou vice-versa, pois as cidades a que ele se refere - Juazeiro (Bahia) e Petrolina (Pernambuco) – são dividas apenas pelo rio mencionado. Muitos aspectos do espaço vivido nas duas cidades, ou seja nos dois estados, permitem essa identificação local/regional[1].
Os cantores e compositores Gilberto Gil e Dominguinhos, em Lamento Sertanejo, apresentam uma identidade semelhante ao autor de Saudade Brejeira:
Por ser de lá do sertão / Lá do serrado / Lá do interior, do mato / Da catinga, do roçado / Eu quase não saio / Eu quase não tenho amigo / Eu quase que não consigo / Ficar na cidade sem viver contrariado
Por ser de lá / Na certa, por isso mesmo / Não gosto de cama mole / Não sei comer sem torresmo / Eu quase não falo / Eu quase não sei de nada / Sou como rês desgarrada / Nessa multidão boiada / Caminhando a esmo.

Os autores abordam a difícil relação de uma pessoa que se acostumou a viver na simplicidade de um pequeno lugar, e que para a “cidade grande”, onde se presume que as pessoas não se olham nem quando se esbarram, onde a individualidade está supostamente presente em todos. O migrante torna-se individualista a partir desse tipo de tratamento que recebe, chegando a se considerar uma rês (uma novilha) que se separou do grupo maior. Observa-se um certo determinismo ambiental quando os hábitos humanos são considerados como oriundos do mato, do sertão.
Um processo semelhante de representação da região ocorre na poesia, entre a naturalização e a recriação cultural. O poeta piauiense Hermes Vieira percorre os mesmos caminhos dos compositores acima citados. Vejamos Lamento de um retirante órfão:
Seu doutô, vosmincê tá bisservando
Bem prali, mais pra lá desses lagero,
Uma cova e uma crúiz já disbotando
Bem pertim desses pé de mamelêro ?

Apois é nessa cova, meu patrão,
S'apagando e cuberta de capim,
Quase nu, sem mortáia e sem caxão,
Onde tá sipurtado meu paizim.

Vê tombém essas outas piquinina
Onde o só tá bejando cum seus rai ?
São dos meus rimãozim,-Bento e Cristina,
Qui morrero do jeito de papai.

Foi a seca, esse monstro do Nordeste,
Qu' iscanchada num só devoradô,
Cunduzindo um surrão de fome e peste,
Meus trêis entes quirido aqui matou.

Vivo só cum mamãi, pobe e duente,
Supricando do povo a cumpaxão;
Mais porém, muntos somba e ri da gente
E nos dão disigano im vêiz de pão.

E o pió disso tudo, cá pra mim,
É si vê passá era e chegá era
Intregando pra muntos leite e vim,
E pra nóis sofredô, fome e miséra!

Muntos diz qui o Guverno sempre dá
Uma ajuda pr'aqueles qui têm fome
Mais porém, quando a ajuda sai de lá,
Outa Seca pió lhi agarra e come!

Quando chega os momento d'inleição,
As premessa têm chêro de alimento;
Mais,dispois, junto o vento elas si vão,
E nóis fica no mêrmo sufrimento!.

O poema expressa uma linguagem típica - “Seu doutô” e “vosmincê”- além de vários elementos significativos do sertão nordestino como, na 1° estrofe, “Mamelêro” e “lagero”, retratando a desilusão de um sertanejo que sofre a seca e suas conseqüências o que também implica numa crítica social as desigualdades que geram a miséria, a fome e a morte. Na 6ª estrofe quando aparecem as expressões “Intregando pra muntos leite e vim, E pra nóis sofredô, fome e miséra” o autor argumenta sobre o círculo vicioso da corrupção política e oportunista, que geralmente se beneficia da ocasião para tirar proveito da situação, prevalece inescrupulosamente sem qualquer pudor na região nordeste. (como em todo território nacional).
Na 7ª estrofe, a linguagem do texto, deixa claro a pouca escolaridade do narrador que explana a situação de miséria em que vivem ele e sua mãe, a falta de assistência do governo - “Muntos diz qui o Guverno sempre dá” - e a desilusão de uma realidade melhor, típico de um retirante nordestino.
No poema Nordeste, Vieira conjuga o máximo de elementos culturais para forjar uma identidade nordestina:

Meu Nordeste feiticeiro, / Morenão de bronze o peito, / Genuíno brasileiro, / Eu me sinto satisfeito / Em ser filho de um teu filho / E no chão por onde trilho, / Que venero com respeito.

Meu Nordeste das moagens / Nos engenhos de madeira, / Dos açudes, das barragens, / Da lavoura rotineira, / das desmanchas de mandioca, / Do foguete-de-taboca / Irmão gêmeo da ronqueira.

Meu Nordeste onde os velórios / São rezados no sertão, / E improvisam-se os casórios
(Sem juiz, sem capelão), / Os padrinhos e os compadres, / As madrinhas e as comadres, / Na fogueira de São João.

Meu Nordeste do bornal, / Rifle, bala e cartucheira, / Da "lombada" e do punhal, / da "garruncha" e da peixeira, / Do cacete e do facão, / Com que um cabra valentão / Desmantela festa e feira.

Meu Nordeste em rede armada / (De algodão ou de tucum), / Aguardando a maxixada / Com quiabo e jerimum, / Mel, canjica e milho assado, / Feijão verde e arroz torrado, / Na semana de jejum.
Meu Nordeste a boi de carro... / Carro-de-boi do Nordeste, / Tosco, humilde, simples charro, / Submisso e a nada investe, / Que, arrastando estrada afora, / Range, grita, canta e chora / Ajaujado à canga agreste. (....)

Tendo em vista a recorrência da representação de uma imagem territorial que caracteriza uma identidade regional ao longo de quase meio século, tomamos com cuidado a observação de o processo de globalização em curso, possibilita a emergência de regionalismos e outras referências diferenciais (étnicas, locais, etc.), a exemplo do que nos propõe Haesbaert (1999b).
O mercado fonográfico, o surgimento e ampliação das redes de televisão não substituíram por completo o rádio. Modos de vida se transformaram, todo uma ordenamento sócio-espacial se refez. No entanto, seguindo os passos de Frémont com sua região – espaço vivido ou região identidade e da topofilia de Bachelard retomada por Iná Elias de Castro, é possível seguir justapondo os elementos culturais com outros atributos que o “regional” ganha ou assume na música e literatura, adjetivando-as. A mesma autora nos permite tratar do regional como uma escala interposta entre o local e o nacional, não necessariamente geométrica, cartesiana (CASTRO, 1995), mas, neste, caso, subjetiva, afetiva, crítica ou naturalizadora, mas indicadora das relações dos seres humanos com o espaço. Os compositores às vezes tratam do espaço próximo do local como metáfora do regional. E esse regional, por sua vez, não necessariamente coincide com os limites geo-econômicos ou político-administrativos.

Bibliografia

ASSARÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto cá: filosofia de um trovador nordestino. Petrópolis: Vozes, 1978.

CASTRO, Iná Elias de. Imaginário político e território: natureza, regionalismo e representação. In: CASTRO, Iná Elias de et all (Orgs.) Explorações geográficas: percursos no fim de século. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1997, pp. 155-196.

_____________. O problema da escala. In: CASTRO, Iná Elias de et alli (Orgs.) Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, pp. 117-140.

_____________. O Mito da Necessidade: discurso e prática do regionalismo nordestino. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1992.

CORRÊA, Roberto Lobato. Região: a tradição geográfica. In: CORRÊA, Roberto Lobato. Trajetórias geográficas. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1997, pp. 183-196.

DIAS, Liz Cristiane; SOBARZO, Oscar. A leitura do rural nas músicas caipiras. Revista Formação, Presidente Prudente, v. 9, n. 2, p. 39-54, 2002.

FERNADES, Bernardo Mançano. Geografia em Canção. Orientação, No. 9, 1992, p. 23-25.

FRÉMONT, Armand. Introdução: redescobrir a região. In: FRÉMONT, Armand. Região, espaço vivido. Coimbra, Livraria Almedina, 1974, pp. 11-18.

GOMES, Paulo César da Costa. O conceito de região e sua discussão. In: CASTRO, Iná Elias de et alli (Orgs.) Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, pp. 49-76.

HAESBAERT, Rogério. Identidades territoriais. In: ROSENDAHL, Zeny e CORRÊA, Roberto Lobato (Orgs.) Manifestações da Cultura no Espaço. Rio de Janeiro, ed. UERJ, 1999a, pp. 169-190.

_____________. Região, Diversidade Territorial e Globalização. Geographia, rio de Janeiro. Ano 1. Nº 1. Junho/1999b, pp. 15-39.

_____________. Território, poesia e identidade. In: HAESBAERT, Rogério. Territórios Alternativos. São Paulo, Contexto, 2002, p. 143-158.

MARTINS, José de Souza. Música sertaneja: a dissimulação da linguagem dos humilhados. In: MARTINS, José de Souza. Capitalismo e Tradicionalismo: Estudo sobre as contradições da sociedade agrária no Brasil. São Paulo. Pioneira, 1975, pp. 103-161.

MOURA, Fernando & VICENTE, Antônio. Jackson do Pandeiro: o rei do ritmo. São Paulo, Ed. 34, 2001.

RAMALHO, Elba Braga. Asa branca – Um estudo poético-musical. Humanidades – Revista de Humanidades e Ciências sociais. Ano 1. No. 1. 1999, pp. 17-24.

RATTS, Alecsandro JP. Imagens da seca na MPB. Boletim Raízes N1o. 24, Fortaleza, IMOPEC – Instituto da Memória do Povo Cearense, p. 8.

VIEIRA, Hermes. Poemas do Nordeste. Teresina, S/Ed, 198?.

Discografia

ALTINHO, Jorge. 1984. Vida Viola. RCA Camden.

GIL, Gilberto. 1975. Refazenda. Philips.
GONZAGA, Luiz e FAGNER, Raimundo. ABC do Sertão- Gonzagão e Fagner 2. 1988. BMG Ariola.

GONZAGA, Luiz. 2001. Luiz Gonzaga ao vivo – volta pra curtir (Gravações de 1972). BMG/RCA.

SECA, Volta.2000 Cantigas de Lampeão. INTERCD Gravações e Edições Musicais Limitadas, 2000. Gravado originalmente em 1957.

[1] Outra forma de expressa musical que tem sido tratada como regional são as chamados worksongs, canções de trabalho, que, no Brasil, são encontradas em diversas ”regiões”. Em Goiás temos o exemplo das fiandeiras. A conhecida Asa Branca era uma canção de trabalho que se cantava nas colheitas de algodão (RAMALHO, 1999). Essa canção após modificações de algumas estrofes, transformou-se numa canção símbolo do Nordeste. Além do refrão de Mulher Rendeira (que consta como autoria do cangaceiro/músico Volta Seca), um outro exemplo clássico do Nordeste de worksong é a música o Vendedor de Caranguejo: Caranguejo Sá / Caranguejo Sá / Apanho ele na lama / E trago no meu caçuá / Eu perdi a mocidade / Com os pés sujo de lama / Eu fiquei analfabeto / Mas meus filhos criou fama / Pelo gosto dos meninos / Pelo gosto da muié / Eu já ia descansar / Não sujava mais os pés / Os bichinhos estão criados / Satisfiz o meu desejo / Eu podia descansar / Mas continuo vendendo caranguejo.
[1] Resultados preliminares de pesquisa em andamento originada na disciplina Teoria da Região e Regionalização, ministrada pelo prof. Dr. Alecsandro JP Ratts no Instituto de Estudos Sócio-ambientais da Universidade Federal de Goiás.
[2] Carlos Augusto F. Monteiro, em O mapa e a trama, colige ensaios geográficos que têm a literatura por foco, escritos entre 1987 e 1998. Rogério Haesbaert analise a identidade regional de gaúchos e nordestinos, através da poesia, passando ligeiramente pela música. Bernardo M. Fernandes propõe uma metodologia para a utilização da música no ensino de Geografia. Dias e Oscar Sobarzo (2002) abordam as músicas caipiras.
[3] Como procedimento metodológico partimos de um esquema em que distinguimos: canção, compositor(es)(as), intérprete(s), contexto (de surgimento da canção, destacando a primeira gravação), e aspectos da região que são abordados na canção (naturais, econômicos, políticos, históricos e/ou culturais).
[4] Observamos que não existe propriamente um ritmo denominado forró, palavra de origem controversa, e sim um evento. No Nordeste se fala em “ir ao forró” ou “dançar forro”.
[5] Sobre Luiz Gonzaga ver: DREYFUS, 1997. A respeito de Jackson do Pandeiro, consultar: MOURA & VICENTE, 2001.

Sexta-feira, Dezembro 28, 2007

Petista vira personagem de cordel

RECIFE - Durão ou sensível, Lula caiu no gosto dos cordelistas. Em Recife, o folheto “Lula, um operário no poder", de Guaipuan Vieira, vende como água, com versos como “Hoje Lula é presidente/ Do Brasil do excluído/ Que espera por mudanças". Já em Fortaleza, Antônio Klévisson Viana emplacou três edições do livreto “A grande vitória de Lula. O Brasil sem medo de ser feliz". “Lula tem todas as características de personagem de cordel. Para nós, é um herói, o plebeu que virou rei", disse Viana. Rei ou plebeu, os fãs podem até carregar na lapela o plebeu que virou rei: nas feiras de artesanato do Nordeste virou febre o Lulinha, um bonequinho-broche em papel machê. Na opinião do publicitário Rodrigo Leão, diretor de criação da W/Brasil, uma das principais agências do país, Lula tem a embalagem certa com o conteúdo certo para os brasileiros. Lula é pop, segundo ele, porque é a cara do povo. Além de ter uma noção clara de marketing, ocupando espaços importantes, Leão lembra que o PT é o único partido que virou camiseta: “A origem de Lula e o que ele defende são sinais muito claros. E, em comunicação, clareza é fundamental. Nesse sentido, a figura do Lula é uma embalagem que combina com a mensagem. Lula é o que a embalagem oferece", avalia. Para o público, Lula é pop, segundo Leão, por causa do seu comportamento e das suas atitudes: “Na cultura pop brasileira dos últimos 40 anos, desde antes da ditadura militar, sempre houve um 'Eu sou contra o Governo'. O brasileiro era um e o Governo era outro. O Lula furou um pouco essa barreira do eles lá e nós cá". Para explicar a popularidade do presidente, o diretor de criação compara Lula ao ex-presidente Fernando Henrique. “A falta de polimento que ele tem representa os brasileiros melhor do que um presidente mais sofisticado, como Fernando Henrique. Fernando Henrique representa o Brasil com sofisticação. O Lula é uma representação mais natural, menos elaborada. Por isso, causa tanta emoção". Apesar do sucesso, o publicitário duvida que Lula, no poder, seja um bom garoto-propaganda, já que os políticos sempre causam alguma desconfiança nos cidadãos: “Preferiria que Lula fosse um ótimo garoto-propaganda após sair do Governo. Isso ia significar que ele foi um ótimo presidente".

E-Mail: politica@hojeemdia.com.br Fonte: Jornal HOJE -BH,19/01/2003