quinta-feira, julho 09, 2009

A POESIA DE HERMES VIEIRA (Antologia poética piauiense - J. Miguel de Matos. Editora Artenova. Ed.1974. Págs: 157 a 164) Artur Passos, por desejo de meu coração, que vai abrir, com a pena já divinizada pelo trato das Letras, este canto de "Caminheiros da Sensibilidade", onde vai arrulhar, em trinados de tristeza e de alegria, o poeta folclórico Herdes Vieira, prata de casa, nascido, como João Ferry, na suave Valença, alentada pelas cantigas dolentes do Caatinguinha: É preciso destacar, outrossim, que a história da literatura ocupa-se de obras concebidas e desenvolvidas por indivíduos identificados e largamente conhecidos, enquanto o folclore, pelo consenso unânime de seus cultores, estuda contos e lendas que não tenham autores individuais; que andam de boca em boca e possam ser qualificados em consonância com determinado número de categorias universais; que nada tenham, na contextura literária, que possa permitir dar-se-lhes autor individual ou particular, nem época, nem origem, e muito menos ainda arbitrária classificação em outras categorias literárias, formando categoria à parte. E se as narrativas de La Fontaine e as de outros tabulistas mais recuados, não obstante a conclusão moral que tenham sob o "véu diáfano da fantasia" e cujos personagens são irracionais que trocam idéias, contendem entre si, exercem atividades sociais e brigam à base do amor; ou se essas narrações de coisas imaginárias, como contos de sereias e de encantamentos, são, em parte, aceitas como matéria folclórica não é pelo conteúdo em si fantástico e puramente imaginário que contêm, mas por conterem, na essência, algo mais que simples fantasias; por guardarem como um relicário restos de crenças e costumes de outros tempos, não passando animais que falam, príncipes encantados e princesas mitológicas formosas como o despontar da manhã, transformadas em aves, às vezes em serpentes, e até em coisas inanimadas, de evidente sobrevivência de antigas divindades, objetos outrora de culto, que o cristianismo. Levou para o campo da superstição e mais tarde para os domicílios da literatura sendo, ainda, um liame que deve ligar e unir por fortes.laços morais o homem da era eletrônica ao dos tempos fabulosos de Prestes João e da Rainha de Sabá". Fazendo, quase só, a apologia dos vates que caminham nesta obra, pois ela não tem sentido essencialmente critico, não me prendo, por força dessa derivação, ao estudo aprofundado do que o poeta produziu para a vastidão da Literatura, trazendo-o, antes, se vivo, ao conhecimento da geração atual, e, se morto à lembrança ingrata dos que ainda carregam nesta vida, como um Jesus redivivo, o pesado madeiro de seu sofrimento. Hermes Vieira, a maior expressão da poesia folclórica do Piauí, se chama, por inteiro, Hermes Rodrigues Cardoso Vieira e tem o umbigo enterrado em Elesbão Veloso, município da Cidade de Valença. Nasceu a 23 de Setembro de 1911. É filho de Raimundo Rodrigues Cardoso Vieira e de Joaquina de Sousa Viana, ambos já aliviados, por bondade de Deus, do pesado surrão da Vida. Muito viajado, esteve alguns anos na Amazônia, onde bebeu, fartamente, em cantata com o "Inferno Verde", vivendo na ambiência trepidante e misteriosa daqueles matões Envios, o néctar que, mais tarde, na tropicalidade de sua terra natal, iria destilar para o acervo cultural de seu povo. Como Giovanni Papini, Machado de Assis, João Ferry e tantos outros que a memória teima em esconder, Hermes Vieira, enfiado no ventre das noites, acolitado por livros de capas gastas e à vaga claridade de lamparinas fumacentas, é cultura autodidata, que, para algum anelado, pode constituir mancha na luz ofuscante que os seus pés vão deixando nos caminhos que percorre, sustendo a Lira e padejando o verso. "0 Órfão Caboclo" abre este trabalho sobre o poeta de Elesbão Veloso, e o leitor vai sentir, mesmo que tenha o coração de pedra, que canto de amor há em seus versas, ditos na linguagem de quem sabe apenas sentir, na gramatização violenta e nativa que o caboclo, livre como um passarinho, vai deitando nas veredas, nas ruas, nas clareiras e nos bordéis improvisados, de que está cheio o sertão:

"Faz dez ano qui eu nasci, e seis faz qui me intindi; E dos seis então pra cá, Sem perde nenhum insejo, Noite e dia, alegre vejo Tanta coisa d'incantá: —Vejo os lago e vejo as fonte; Vejo os morro e vejo os monte; Vejo os campo e os matagá, Os serrote e as colina, Tabuleiro e as campina, E as cascata saluçá;, —Vejo alegre a passarada; Vejo as báxa fulorada; Vejo as lindras brobuleta, Báxa a riba e báxa abáxo, Sacudindo os leves cacho, Das bunina e violeta; —Vejo as nuves azulada, Pur'os vento carregada Neste ispaço co de ani; Cumo um pranto de Maria, VeJo as chuva clara e fria, Lá do céu no chão cai; —Vejo vim do chão moiado Tudo quanto foi prantado Pur'as mão do lavrada; Também, vejo vim os matim, Semiado cum carim, Pur'as mão do Criadô; —Vejo o Só morre dorado; Vejo o céu azu istrelado; Vejo a lua dispontá Pratiada sobre as serra, Istendendo cá na Terra, As tuáia de luá; Vejo as fria madrugada; Vejo o branco d'arvorada; Vejo a d'Arva aparece; As manhã vejo raiá; Vejo o dia clariá; Vejo o Só de oro nasce; —Vejo pai, vejo irmão, Entre nos vejo união; Vejo a casa onde nasci... Mas o meu maia desejo D'inxergá, porém num vejo, É mamãi, qui eu nunca vi !"


Segundo Hermes: “Há uma lenda muito conhecida, notadamente nos arrabaldes do Nordeste, batizada pelo sabor do zé-povinho de "Mãe-da-Lua", "Chora-Lua" ou "Urutau". É uma ave noturna de canto dolente e entrecortado, dando, a quem tem o ouvido preso aos seus trinados de tristeza, a impressão de uma gargalhada melancólica de quem disfarça a acrimônia de uma angústia.” Em "Lamentos de Mãe-da-Lua", Hermes Vieira, forjicando uma grafia adrede e cuidadosamente estudada, põe nos lábios do leitor a pronúncia real do caboclo, no seu desleixo lingüístico e na sua conhecida preguiça mental: "No sertão, nos matagais, Quando vai no céu a lua E nas fontes cristalinas O luar meigo flutua, Um silêncio agreste e doce Deixa tudo extasiado; Pelo espaço enluarado. E uma voz dolente ecoa Essa voz que dissimula Uma dor a gargalhar, É notória no sertão Pelas noites de luar. É a voz da Mãe-da-Lua A chorar o ausente esposo Que, segundo afirma a lenda, teve um fim misterioso. Era um pobre lenhador; Certa vez, indo lenhar, Por motivo inexplicável, Não voltou mais ao seu lar. Mãe-da Lua, em desespero, Coração angustioso, Atirou-se pelas brenhas A procura do esposo. Andou muito, mas, debalde: —O marido não encontrou, E por isso nunca mais A cabana ela voltou. E depois, num ramo nu, Sob um manto de luar, Outras aves encontraram Mãe-da-Lua a soluçar. Não querendo a infeliz ave Pelas outras ser zombada, Logo o pranto simulou Numa triste gargalhada. E num galho, solitária, Mergulhada no luar, Ela ainda continua Com seu triste gargalhar. Como oculta a Mãe-da-Lua, Gargalhando os seus tormentos, Muitos riem, assim também, Ocultando os sofrimentos".

A pavorosa seca de 1932, com seu manto de desgraça, arrastou para a miragem do vale do Itapicuru, que corta as entranhas ubertosas do Maranhão lírico e sentimental, dois personagens que inspirariam, no correr dos dias, ao poeta folclórico Hermes Vieira, versátil e fecundo, a sua mais imortal produção literária. Chamavam-se esses dois personagens de Hermes: Piroca e Loló, ele vindo de Pernambuco e ela do Rio Grande do Norte. Apaixonados ao primeiro raio do olhar esbraseado pela paixão, amaram-se no primeiro encontro, ali adiante o Itapicuru coleando e gemendo no tumulto de suas águas. Mas o destino, pela mão dos pais de Loló, meteu-se entre aqueles dois jovens corações para angustiá-los. Piroca, distante de sua bem amada, metia-se na cachaça —"água que-gauinumbi não bebe"—para afogar as tristezas que a saudade de Lolô ia Ihe cravejando no coração. Certo dia— lá vem o certo dia de cada vida! — Piroca, distendendo a vista pelas margens do Itapicuru, vislumbrou, na face inquieta das águas, a figura morena de sua amada frisando a linfa com as diabruras de seus dedos, Loló, afogueada pelo olhar ardente de Piroca e querendo fugir da calidez que Ihe incendiava o coração apaixonado, faz das águas um imenso lençol para esconder a beleza e a virgindade de seu corpo. O corpo inteiramente engolido pelas águas do Itapicuru e a cabecinha aparecendo vagamente à flor da corrente liquida, Loló provoca o diálogo que Hermes Vieira batizou com o nome de "A Falsa tara":


—"Seu Piroca, eu vou já contá papai, Qui você, de marcado, me viu nua! — Tá brincando, Lolô, qui tu num vai Ispaiá tá conversa pula rua!... —Eu num vou?!... Pois num vá se apreparando Pra se te cum papai ou cá mamei!... Num vá, não!... Quê qui que você oiando Eu dispida, seu nojento, tomá boi?... —Ai, Loló, vou contá pruquê cá vim, Qué pratu num cuidá qui foi mardade... Apois bem, todo o causo foi assim... Tenha carma e me sunte esta verdade: Muitos conta qui sai dos sêi das água, Certa moça tão lindra de incantá, Qui se chama de iára ou de mãe-dágua, E tem ela um palaço singulá. No momento qui sai do seu palaço, Se abiserva qui as água e os peixe pára; Lá de fora se cala logo os passo; E grita os pescada: "Lá vem a lára! " Ela, intão-se, aparece bem formosa Cum seu corpo bem arvo e toda nua... Dê pru vista no céu, quando sodosa, Vem subindo, subindo, a branca Lua... Tem siás face tão lindra cumu o dia . Quando rasga da noite a preta sáia; E seus óio tem tanta maravia Cuma d'Arva nos máre quando ráia. Seus cabelo são grande cumo os fio Qui se tira dos pé de caruá; E purisso, somente, num tem frio, Pois faz deles lençó pra se imbruiá. Tem seus láibos fazidos de carmim, Perfumados de amo, de sedução; Seu prefume é de frô de bugarim, Das abrida nas noite de verão. E siá voz é tão doce cumo o mé Qui se incontra nos favo do urussu; E arguém diz qui de lindra imita inté Cum o sedoso canta d'uirapuru. Seus dois sai são dois fruto num só gái, Dos qui fica agrudado na madêra, Qui balança, sacode, mas num cái, Mas são fruto qui mermo verde chora... E ela, intão, purriba assim da frô, Da frô dágua, se fica sem move; Desse jeito ela atrai o pescada, Qui vai indo im seu rumo sem querê. Foi purisso, Lolô, qui mi atrivi Incostá mia canoa onde tu tava, Cuidando qui tu era (nunca vi!) A Mãe-dágua, Lolô, qui mi chamava... E tu gosta... Piroca, deu, tu gosta? —Eu ti juro, Lolô, pur todo o santos —Pois, então, toda a tarde tu incosta Tua canoa, benzim, neste recanto. . . " A poesia folclórica, por sua originalidade, pelo sabor ativo de sua narração, pela agressividade da linguagem, pela ardência do verbo matuto, tem o gosto daquela ceia servida no Saco da Braba, destes cafundós do Piauí, nos versos matutos de Hermínio Castelo Branco: "Cada qual, com sua faca, de cócras junto à panela, foi tirando com a cuia que servia de tijela, e despejando a farinha na coalhada, dentro dela". "Misturando a carne assada, gorda, frescal e cheirosa, todos ficaram contentes com a ceia apetitosa: nem no Céu nunca se viu comida tão saborosa".


Não seria, narrando em rápidas pinceladas a poesia folclórica de Hermes Vieira, que este autor olvidasse o sentido nativo dos versas do poeta de Valença, tendo no coração a imagem da terra natal, osculada no inverno pela água das chuvas que despencam do Céu fragmentadas e cristalinas, e abrasada nos estios pelos raios de fogo do sol. E o soneto "Piauí" saiu da forja do poeta, nestes versos que o coração não pode reter na sua sensibilidade e nos seus arcanos:

"Teus montes, as montanhas e as colinas; Teus vales ubertosos, florescentes; Teus campos matizados, sorridentes; Teus brejos fabulosos de águas frias; Teus rios, tuas fontes cristalinas; Teus lagos pequeninos, transluzentes; Teus bosques perfumados, viridentes; Teus belos chapadões e as campinas; Teus ricos e pomposos estendais De flores e de frutos naturais; De lindas borboletas multicores; De ledos e canoros passarinhas, São tudo para mim dourados ninhos, São bálsamos que acalmam minhas dores!"


Este é Hermes Vieira que Valença, pela data de Elesbão Veloso, deu ao Piauí. Um presente de raro valor, uma luminescência de ofuscante brilho, uma luz de embevecente claridade! ------------------------------------------------------------------------------------------------- HERMES VIEIRA, O EMBAIXADOR DA POESIA POPULAR PIAUIENSE



A obra do indianista e folclorista piauiense Hermes Vieira representa os valores da nossa cultura popular. Sua poesia, repleta de figuras e flagrantes do cotidiano nordestino, exalta a beleza dos costumes do homem do campo, sem perder as sutilezas tão difíceis de retratar em uma obra de arte. O dia 17 de julho de 2000 significou àqueles que valorizam a cultura popular um luto inesquecível não pela morte física desse vate piauiense, mas pelo raro valor que representa sua poética. Grandes os homens que sabem captar o sentimento intuitivo que emana da arte, principalmente se a mesma se encontra em seu estado natural nos costumes de um povo, com suas tradições, crendices. Na visão de seu filho, Guaipuan Vieira, também seguidor dessa tradição poética que, acima de tudo, o popular é levado a sério, “a morte do poeta é uma visão sintética; é uma realidade circunstante, transcendental; o seu lirismo é mais lírico e narrativo, deixando lugar para meditação". Mesmo tendo partido, é um dever dos PIAUIENSES, amantes dessa arte, reconhecer com vigor a rara poesia de Hermes Vieira.


Glétson Aguiar Martins -Professor de Literatura

NORDESTE

Autor: Hermes Vieira

(Do Livro "Poemas Nordeste")


Meu Nordeste feiticeiro,

Morenão de brônzeo peito,

Genuíno brasileiro,

Eu me sinto satisfeito

Em ser filho de um teu filho

E no chão por onde trilho,

Que venero com respeito;


Meu Nordeste das moagens

Nos engenhos de madeira,

Dos açudes, das barragens,

Da lavoura rotineira,

Das desmanchas de mandioca,

Do foguete-de-taboca

Irmão gêmeo da ronqueira;


Meu Nordeste onde os velórios

São rezados no sertão,

E improvisam-se os casórios

(Sem juiz, sem capelão),

Os padrinhos e os compadres,

As madrinhas e as comadres,

Na fogueira de São João;

Meu Nordeste do bornal,

Rifle, bala e cartucheira,

Da "lombada" e do punhal,

da "garruncha" e da peixeira,

Do cacete e do facão,

Com que um cabra valentão

Desmantela festa e feira;

Meu Nordeste em rede armada

(De algodão ou de tucum),

Aguardando a maxixada

Com quiabo e jerimum,

Mel, canjica e milho assado,

Feijão verde e arroz torrado,

Na semana de jejum;


Meu Nordeste a boi de carro...

Carro-de-boi do Nordeste,

Tosco, humilde, simples charro,

Submisso e a nada investe,

Que, arrastando estrada afora,

Range, grita, canta e chora

Ajoujado à canga agreste; Meu Nordeste trovador Nas noitadas de luar; Do folguedo, do tambor, Da taboca (1) a suspirar, Da sanfona e reco-reco (Perdoai-me, ó Deus, se peco), Da cachaça popular; Meu Nordeste da buchada, Mungunzá, cuscuz, pirão, Da gostosa carne assada Sobre a grelha de tição, Da farofa, da paçoca, Rapadura com pipoca Machucadas no pilão; Meu Nordeste das caçadas De jaguar, de caitetu De veados, de queixadas De preá, mocó e tatu, De teúba, de Cupira, De munbuca e jandaíra, De canudo, de urucu; Meu Nordeste do roçado Feito a braço suarento Do campônio abnegado, Que com calma e sofrimento, Quando a seca não o castiga Sempre extrai da terra amiga O sonhado mantimento; Meu Nordeste do forró Cá na roça onde se sente Cheiro ativo de “suó”, De cachimbo e de aguardente Olorosa, fina e pura, De café com rapadura Saborosa, forte e quente; Meu Nordeste dos reisados Com caretas a manguá, Com pinhão e ema enfeitados, Com burrinha e Jaraguá; Do famoso Pai Francisco, Vaquejando um boi arisco, Com cuíca e maracá; Meu Nordeste retirante, Pobre Zé que pouco come, Filho à frente, triste, errante, Zé sem chão, sem lar, sem nome, Que estendendo as magras mãos Aos felizes, - seus irmãos, A resposta é fome, é fome; Meu Nordeste do vaqueiro, Que não teme, nem rezinga Mofumbal e “mameleiro”, Carrascal, mata e caatinga, Brocotó, serra e calhau, Escanchado num quartau, Pra pegar boi de mandinga; Meu Nordeste da cangalha, Dos alforjes, do surrão, Dos chapéus de couro e palha, Papa-fogo e “mantulão”, Do quibano, do jacá, Do balaio e caçuá, Da carroça e carretão; Meu Nordeste do jirau, Da urupemba e tapiti, Do ganzá, do berimbau, Do mundé, quixó e jiqui, Da arapuca, o fojo... e o fuso A girar no chão, confuso, Num pé só, como um saci; Meu Nordeste do cavalo De cocheira esquipador, Do relógio alado (o galo) Que não burla o viajor; Meu Nordeste do jumento, Que, com calma, manso e lento, Vence a fome, a sede, a dor; Meu Nordeste onde farfalha O garboso juazeiro, Invencível na batalha Contra a Seca, - esse guerreiro Implacável, sem comando, Desde séculos afrontando O Governo brasileiro; Meu Nordeste do painel Multicor de tradições, Dos romances de cordel, -Portadores de emoções, Dos poetas da viola, Que derramam da cachola Divinais inspirações; Meu Nordeste da oiticica Cujo lenho, qual gigante, Cabeleira espessa e rica Fita o céu, depois, vibrante, Abre os ramos sobre o solo, Conchegando ao doce colo O cansado viandante; Meu Nordeste do tropeiro De alpercata de rabicho, Incansável recoveiro, Que, por gosto ou por capricho, Sobe e desce a bruta carga, Noite e dia (oh! vida amarga!), Pra ganhar um pão tão micho; Meu Nordeste da almofada Com seus bilros em contenda Entre os dedos de uma fada, Transformando linha em renda; Meu Nordeste do tear Tosco e feio a fabricar Belas redes, na fazenda; Meu Nordeste da venusta, Opulenta, airosa e bela Carnaúba rica, augusta, Que, silente e com cautela, Forte, esbelta, passo a passo, Vai-se erguendo pelo espaço, Flabelando a verde umbela; Meu Nordeste dos currais Em que ficam recordadas, Ao vigor dos caatingais, A ternura das boiadas, A voz doce dos vaqueiros E a contenda dos rafeiros, No labor das vaquejadas; É de ti, Nordeste rico Em primores e magias, Sabiá que traz no bico Sonorosas sinfonias, Que dedico este livrinho, Que compus no meu ranchinho, Ao sabor das noites frias.

(I) –O pífano de taboca

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MÚSICA E POESIA REGIONAL:

O NORDESTE NA RELAÇÃO ENTRE GEOGRAFIA E ARTE


Gilberto Ricarte Martins - IESA/UFG / gilbertoricarte@yahoo.com.brLuiza Helena Barreira Machado - IESA/UFG / -hyllena@yahoo.com.brGervásio Barbosa Soares Neto - IESA/UFG / legeographe@pop.com.brAlecsandro J.P. Ratts (orientador) - IESA/UFG / ratts@iesa.ufg.br



Introdução


Os estudos geográficos vêm incorporando o estudo das manifestações artísticas, especialmente as literárias e musicais (MONTEIRO, 2002; HASEBAERT, 2002; FERNANDES, 1992)[2] e, por conseguinte abrem perspectivas para a abordagem denominada de Geografia Cultural (ou Humanista). O presente trabalho pretende mostrar uma analise de músicas e poesias consideradas regionais – pelo tema, pela procedência dos compositores e pela recepção que delas faz o mercado e o público em geral.As regiões brasileiras, como objeto de análise geográfica e como entidades político-administrativas apresentam, na maioria das vezes, grandes desigualdades, focalizadas por critérios predominantemente geoeconômicos (CORRÊA, 1997).

Uma abordagem da noção de região que aponta para as relações subjetivas que os seres humanos estabelecem com o espaço (FRÉMONT, 1974) permite falar em identidade regional, tendo em mente um jogo de permanências e recriações culturais.Os seres humanos constroem uma relação de proximidade ou afetividade, afastamento ou preconceito com a idéia de “região” em que se destacam a paisagem, a linguagem, a culinária e a cultura popular. Esses elementos comparecem na chamada “música regional” e na “literatura regional” que também inclui a crítica social, a insatisfação política e a situação de vários segmentos, a exemplo dos migrantes (os que comparam a vida em mais de uma região). A pesquisa se volta para a análise de poesias e letras de música que retratam a região Nordeste, bastante discutida e sedimentada no debate público enquanto lócus da necessidade, terra de agruras e de belezas naturais, sob o controle de políticos conservadores, em contraste com um povo ora passivo, ora forte[3].Música regional, cultura e mercadoA relação entre música e regionalismo passa pela intervenção do mercado fonográfico, destinado sobretudo ao rádio e à TV. Nesse sentido, vemos a chamada “música caipira” reaparecer como citação estética na “música sertaneja”, no vestir, no cantar e nos temas das canções.

É necessário dizer que isto já acontecera no âmbito dessa mesma “música caipira”: intérpretes individuais, duplas e grupos inteiros apareciam vestidos de “pessoas do campo”, portando insígnias de um mundo rural que havia se transformado (MARTINS, 1975; NEPOMUCENO, 1999), caso explícito da idéia de que passamos a evidenciar a tradição quando estamos na iminência de perdê-la.Por outras vias ainda em tempos de discos de vinil e de constituição do rádio como meio de grande audiência, delineou-se no arco da Música Popular Brasileira a denominação de “música regional”: compositores e compositoras, cantores e cantoras, oriundos das classes populares e médias revisitam o mundo rural, o interior do país – o inner country da língua inglesa e certamente o pays da língua francesa – e constroem suas próprias interpretações da cultura que, por sua vez, contribuem para o amálgama das identidades territoriais (HAESBAERT, 1999).As décadas de 40 e 50 do século XX foram marcadas pela emergência da “música nordestina”, de ritmos como baião, xote, xaxado e forró[4]. Nomes como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, ganham visibilidade no mercado fonográfico e no rádio[5].A literatura dita “regional” é menos marcada pela intervenção do mercado, mas sua rotulação e seu conteúdo, seguem os passos do que afirmamos para o campo da música.

Passamos agora, como resultado preliminar, para a análise das canções e dos poemas.Música, poesia e a relação subjetiva com a regiãoA região Nordeste é a região do Brasil que mais se discute em termos de música e literatura regionais, diversos discursos já foram feitos em relação às desigualdades, esses muitas vezes são manifestações que visam interesses próprios, em geral das elites (CASTRO, 1992). O fato de que o Nordeste precisa ser mais bem atendido comparece nas canções analisadas.“Precisamos restaurar a interpretação poética na Geografia”, nos alerta Haesbaert (p.157) e para complementá-lo é importante salientar que para um conhecimento completo, do objeto de estudo, é necessário o estudo de todas as fontes de informação sobre o mesmo. As manifestações culturais podem muito bem trazer informações relevantes refletindo a identidade de determinada região.

Dentre tantas manifestações culturais, começaremos pelas músicas, que serão a seguir analisadas objetivando nas letras a identificação de elementos naturais, econômicos, culturais, sociais que podem ser considerados atributos da região.Na toada Vozes da Seca, gravada inicialmente em 1953, Luiz Gonzaga e Zé Dantas mostram que o Nordeste não é apenas uma parte do país que se destina a receber ajudas (esmolas). Ao contrário, os compositores têm o objetivo de mostrar que existe um grande potencial de produção, o único empecilho para desenvolve-lo é a falta de água e de vontade política: Seu doto os nordestino / Tem muita gratidão / Auxilio dos sulistas / Nessa seca do sertão / Mas doto uma esmola / A um homi qui é são / O lhi mata de vergonha / Ô vicia o cidadãoÉ por isso pidimos / Proteção a vosmicê / Para as rédeas do poder / Pois o doto dos vinte estados / Temos oito sem chover / Veja bem, quase a metade / Do Brasil ta sem comerDê serviço a nosso povo / Encha os rios de barrage / Dê comida a preço bom / Não se equeça a açudage / Livre assim nóis da esmola / Que no fim dessa estiage / Li pagamo até o juro / Sem gastar nossa coragem/Se o doto fizé assim / Salva o povo do sertão / Se um dia a chuva vimQue riqueza pra nação / Nunca mais nois pensa em seca / Vai dar tudo nesse chão / Cumo vê, nosso destino / Messe tem vossa mão /Outra canção que nos mostra uma grande afeição às “coisas do lugar” é Estrada de Canindé, composta por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, em 1950, onde apresentam detalhes da paisagem do sertão que somente podem ser observados no ritmo lento do caminhar a pé, sem a preocupação materialista que move a sociedade moderna: Automóvel lá nem se sabe / Se é homem ou se é muié / Quem é rico anda em burrico / Quem é pobre anda a péMas o pobre vê nas estradas / O orvaio beijando a frô / Vê de perto o galo campina / Que quando canta muda de cor/Vai moiando os pés nos riacho / que água fresca, Nosso Senhor!Vai oiando coisa a grané / Coisa que pra mode ver / O cristão tem de andar a péAi, ai, que bom / Que bom, que bom que é / Uma estrada e uma cabocla / Com a gente andando a pé Ai, ai, que bom / Que bom, que bom que é / Uma estrada e a lua branca/No sertão de Canindé/.

A valorização de mínimos detalhes faz a felicidade do morador, onde parece ser diferente o tempo (cronológico), pois a vida sem tanta correria, sem o chamado “stress”, que atormenta tanto a vida de todos hoje em dia.

Sentir falta do passado todos sentem, expressar esse tipo de sentimento é o mais difícil, pois notamos que um simples hábito alimentar pode causar sentimentos de insatisfação e gerar, às vezes, até uma aversão ao local onde se está vivendo, tudo por causa da saudade.Como dito anteriormente, as relações que o avanço do capitalismo trouxe, pode causar uma espécie de “saída forçada”, não só as relações capitalistas, como também alguns fatores da natureza, como a seca, a enchente e outros fatores que influenciam a vida.

O poema “Vaca Estrela e Boi Fubá", de Patativa do Assaré que foi musicado pelo próprio autor (ASSARÉ, 1978, p. 324), relata a história de um nordestino que deixa sua terra natal por causa da seca. Pela necessidade de sobrevivência vai para uma terra estranha, onde sente muita falta do seu lugar demonstrando que não se acostumou ao novo contexto:Seu doutor, me dê licença / pra minha história contar / Hoje eu tô na terra estranha, / é bem triste o meu penar / Eu já fui muito feliz / vivendo no meu lugar / Eu tinha cavalo bom / e gostava de campear / Todo dia eu aboiava / na porteira do curral / Eeeeiaaaa, êeee Vaca Estrela, ôoooo Boi FubáEu sou filho do Nordeste / não nego meu natural / Mas uma seca medonha/ me tangeu de lá pra cá / Lá eu tinha o meu gadinho, / não é bom nem imaginar / Minha linda Vaca Estrela e o meu belo Boi Fubá / Quando era de tardezinha/ eu começava a aboiar / Eeeeiaaaa, êeee Vaca Estrela, ôoooo Boi FubáAquela seca medonha / fez tudo se atrapalhar / Não nasceu capim no campo para o gado sustentar / O sertão esturricou, / fez o açude secar / Morreu minha Vaca Estrela, / se acabou meu Boi Fubá / Perdi tudo quanto eu tinha, nunca mais pude aboiar / Eeeeiaaaa, êeee Vaca Estrela, ôoooo Boi FubáHoje nas terra do sul / longe do torrão natal / Quando eu vejo em minha frente / uma boiada passar / as correm dos olhos / começo logo a chorar / me lembro da Vaca Estrela / Me lembro do Boi Fubá / com saudade do Nordeste / dá vontade de aboiar / Eeeeiaaaa, êeee Vaca Estrela, ôoooo Boi Fubá.

Quando os autores se referem à saída do sertanejo para a cidade, no primeiro paragráfo de “Vaca Estrela e Boi Fubá” e no último de “Último pau-de-arara”, observa-se o elemento histórico que grande parte da população nordestina vivenciou: a migração rural. Outro ponto evidenciado nas músicas é a afetividade com o lugar e a região, o orgulho com sua terra, mesmo sabendo que essa não o pode sustentar. E ainda o carinho pelos animais, apego ao seu “patrimônio”, mas que é visto também quase que personificado.

Nessas canções, ainda pode-se observar a estiagem como um elemento climático característico do Nordeste que nos remete à chamada “indústria da seca” que na música referida não é tratada diretamente, mas mostra as suas conseqüências aparentes: a vida sofrida dos sertanejos por descaso da elite e usurpação política.Dentro dos atributos culturais encontram-se o Pau-de-arara e os termos seguintes: esturricou – secou; aboiar – chamar a boiada; medonha – grande; e tangeu – tocou para a frente (a exemplo do que se faz com o gado). Algumas dessas palavras e expressões são encontradas em outras regiões, mas constituem uma característica forte do sertão nordestino.

Nos atributos naturais destacamos o Sertão e o Cariri – área caracterizadas pelos domínios morfoclimáticas e vegetacionais, mas âmbito da ação humana. Ainda se pode encontrar atributos econômicos na composição que se explicitam pela posse da vaca Estrela e do boi Fubá. Identificamos igualmente os atributos sociais expressos na dificuldade de adaptação do retirante em outro lugar e/ou no sofrimento de estar ali longe de seu lugarzinho (torrão natal/região querida). Outros pontos relevantes dessa canção, a exemplo o Nordeste agrário e o vaqueiro como personagem principal, também caracterizam um modo de vida que é recorrente na música “nordestina”. Para mostrar um pouco da afetividade do ser humano com o espaço regional podemos observar a canção composta por Jorge do Altinho, gravada em 1984, denominada Petrolina - Juazeiro. Nas margens do São Francisco/ nasceu a beleza / e a natureza ela conservou / Jesus abençoou com sua mão Divina / pra não morrer de saudade vou voltar pra Petrolina/Do outro lado do rio tem uma cidade / que na minha mocidade/ eu visitava todo dia / atravessava a ponte,/ mas que alegria / chegava em Juazeiro, Juazeiro da Bahia/Ainda me lembro que no tempo de criança / esquisito era a carranca e o apito do trem, / mas achava lindo quando a ponte levantava / e o vapor passava no gostoso vai e vem./ Petrolina, Juazeiro / Juazeiro, Petrolina / todas as duas eu acho uma coisa linda / eu gosto de Juazeiro / e adoro Petrolina. Jorge de Altinho nos dá um exemplo de topofilia (Bachelard apud Castro, 1992), de afeição e identificação com duas cidades que podem ser representativas de todo o Nordeste.

O compositor/intérprete menciona o rio São Francisco, um importante fator para a vida local e regional, se identifica como baiano – pernambucano ou vice-versa, pois as cidades a que ele se refere - Juazeiro (Bahia) e Petrolina (Pernambuco) – são dividas apenas pelo rio mencionado. Muitos aspectos do espaço vivido nas duas cidades, ou seja nos dois estados, permitem essa identificação local/regional[1].Os cantores e compositores Gilberto Gil e Dominguinhos, em Lamento Sertanejo, apresentam uma identidade semelhante ao autor de Saudade Brejeira: Por ser de lá do sertão / Lá do serrado / Lá do interior, do mato / Da catinga, do roçado / Eu quase não saio / Eu quase não tenho amigo / Eu quase que não consigo / Ficar na cidade sem viver contrariadoPor ser de lá / Na certa, por isso mesmo / Não gosto de cama mole / Não sei comer sem torresmo / Eu quase não falo / Eu quase não sei de nada / Sou como rês desgarrada / Nessa multidão boiada / Caminhando a esmo. Os autores abordam a difícil relação de uma pessoa que se acostumou a viver na simplicidade de um pequeno lugar, e que para a “cidade grande”, onde se presume que as pessoas não se olham nem quando se esbarram, onde a individualidade está supostamente presente em todos.

O migrante torna-se individualista a partir desse tipo de tratamento que recebe, chegando a se considerar uma rês (uma novilha) que se separou do grupo maior. Observa-se um certo determinismo ambiental quando os hábitos humanos são considerados como oriundos do mato, do sertão.Um processo semelhante de representação da região ocorre na poesia, entre a naturalização e a recriação cultural.

O poeta piauiense Hermes Vieira percorre os mesmos caminhos dos compositores acima citados. Vejamos Lamento de um retirante órfão:Seu doutô, vosmincê tá bisservando/Bem prali, mais pra lá desses lagero,/Uma cova e uma crúiz já disbotando/Bem pertim desses pé de mamelêro ?/Apois é nessa cova, meu patrão,/S'apagando e cuberta de capim,/Quase nu, sem mortáia e sem caxão,/Onde tá sipurtado meu paizim./Vê tombém essas outas piquinina/Onde o só tá bejando cum seus rai ?/São dos meus rimãozim,-Bento e Cristina,/Qui morrero do jeito de papai./Foi a seca, esse monstro do Nordeste,/Qu' iscanchada num só devoradô,/Cunduzindo um surrão de fome e peste,/Meus trêis entes quirido aqui matou./Vivo só cum mamãi, pobe e duente,/Supricando do povo a cumpaxão;/Mais porém, muntos somba e ri da gente/E nos dão disigano im vêiz de pão./E o pió disso tudo, cá pra mim,/É si vê passá era e chegá era/Intregando pra muntos leite e vim,/E pra nóis sofredô, fome e miséra!/Muntos diz qui o Guverno sempre dá/Uma ajuda pr'aqueles qui têm fome/Mais porém, quando a ajuda sai de lá,/Outa Seca pió lhi agarra e come!/Quando chega os momento d'inleição,/As premessa têm chêro de alimento;/Mais,dispois, junto o vento elas si vão,/E nóis fica no mêrmo sufrimento!./

O poema expressa uma linguagem típica - “Seu doutô” e “vosmincê”- além de vários elementos significativos do sertão nordestino como, na 1° estrofe, “Mamelêro” e “lagero”, retratando a desilusão de um sertanejo que sofre a seca e suas conseqüências o que também implica numa crítica social as desigualdades que geram a miséria, a fome e a morte. Na 6ª estrofe quando aparecem as expressões “Intregando pra muntos leite e vim, E pra nóis sofredô, fome e miséra” o autor argumenta sobre o círculo vicioso da corrupção política e oportunista, que geralmente se beneficia da ocasião para tirar proveito da situação, prevalece inescrupulosamente sem qualquer pudor na região nordeste. (como em todo território nacional).

Na 7ª estrofe, a linguagem do texto, deixa claro a pouca escolaridade do narrador que explana a situação de miséria em que vivem ele e sua mãe, a falta de assistência do governo - “Muntos diz qui o Guverno sempre dá” - e a desilusão de uma realidade melhor, típico de um retirante nordestino. No poema Nordeste, Vieira conjuga o máximo de elementos culturais para forjar uma identidade nordestina: Meu Nordeste feiticeiro, / Morenão de bronze o peito, / Genuíno brasileiro, / Eu me sinto satisfeito / Em ser filho de um teu filho / E no chão por onde trilho, / Que venero com respeito. Meu Nordeste das moagens / Nos engenhos de madeira, / Dos açudes, das barragens, / Da lavoura rotineira, / das desmanchas de mandioca, / Do foguete-de-taboca / Irmão gêmeo da ronqueira.Meu Nordeste onde os velórios / São rezados no sertão, / E improvisam-se os casórios(Sem juiz, sem capelão), / Os padrinhos e os compadres, / As madrinhas e as comadres, / Na fogueira de São João.Meu Nordeste do bornal, / Rifle, bala e cartucheira, / Da "lombada" e do punhal, / da "garruncha" e da peixeira, / Do cacete e do facão, / Com que um cabra valentão / Desmantela festa e feira.Meu Nordeste em rede armada / (De algodão ou de tucum), / Aguardando a maxixada / Com quiabo e jerimum, / Mel, canjica e milho assado, / Feijão verde e arroz torrado, / Na semana de jejum.Meu Nordeste a boi de carro... / Carro-de-boi do Nordeste, / Tosco, humilde, simples charro, / Submisso e a nada investe, / Que, arrastando estrada afora, / Range, grita, canta e chora / Ajaujado à canga agreste. (....)Tendo em vista a recorrência da representação de uma imagem territorial que caracteriza uma identidade regional ao longo de quase meio século, tomamos com cuidado a observação de o processo de globalização em curso, possibilita a emergência de regionalismos e outras referências diferenciais (étnicas, locais, etc.), a exemplo do que nos propõe Haesbaert (1999b). O mercado fonográfico, o surgimento e ampliação das redes de televisão não substituíram por completo o rádio. Modos de vida se transformaram, todo uma ordenamento sócio-espacial se refez. No entanto, seguindo os passos de Frémont com sua região – espaço vivido ou região identidade e da topofilia de Bachelard retomada por Iná Elias de Castro, é possível seguir justapondo os elementos culturais com outros atributos que o “regional” ganha ou assume na música e literatura, adjetivando-as. A mesma autora nos permite tratar do regional como uma escala interposta entre o local e o nacional, não necessariamente geométrica, cartesiana (CASTRO, 1995), mas, neste, caso, subjetiva, afetiva, crítica ou naturalizadora, mas indicadora das relações dos seres humanos com o espaço.

Os compositores às vezes tratam do espaço próximo do local como metáfora do regional. E esse regional, por sua vez, não necessariamente coincide com os limites geo-econômicos ou político-administrativos. Bibliografia ASSARÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto cá: filosofia de um trovador nordestino. Petrópolis: Vozes, 1978. CASTRO, Iná Elias de. Imaginário político e território: natureza, regionalismo e representação. In: CASTRO, Iná Elias de et all (Orgs.) Explorações geográficas: percursos no fim de século. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1997, pp. 155-196._____________. O problema da escala. In: CASTRO, Iná Elias de et alli (Orgs.) Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, pp. 117-140._____________. O Mito da Necessidade: discurso e prática do regionalismo nordestino. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1992. CORRÊA, Roberto Lobato. Região: a tradição geográfica. In: CORRÊA, Roberto Lobato. Trajetórias geográficas. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1997, pp. 183-196.DIAS, Liz Cristiane; SOBARZO, Oscar. A leitura do rural nas músicas caipiras. Revista Formação, Presidente Prudente, v. 9, n. 2, p. 39-54, 2002. FERNADES, Bernardo Mançano. Geografia em Canção. Orientação, No. 9, 1992, p. 23-25. FRÉMONT, Armand. Introdução: redescobrir a região. In: FRÉMONT, Armand. Região, espaço vivido. Coimbra, Livraria Almedina, 1974, pp. 11-18.GOMES, Paulo César da Costa. O conceito de região e sua discussão. In: CASTRO, Iná Elias de et alli (Orgs.) Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, pp. 49-76.HAESBAERT, Rogério. Identidades territoriais. In: ROSENDAHL, Zeny e CORRÊA, Roberto Lobato (Orgs.) Manifestações da Cultura no Espaço. Rio de Janeiro, ed. UERJ, 1999a, pp. 169-190._____________. Região, Diversidade Territorial e Globalização. Geographia, rio de Janeiro. Ano 1. Nº 1. Junho/1999b, pp. 15-39._____________. Território, poesia e identidade. In: HAESBAERT, Rogério. Territórios Alternativos. São Paulo, Contexto, 2002, p. 143-158.MARTINS, José de Souza. Música sertaneja: a dissimulação da linguagem dos humilhados. In: MARTINS, José de Souza. Capitalismo e Tradicionalismo: Estudo sobre as contradições da sociedade agrária no Brasil. São Paulo. Pioneira, 1975, pp. 103-161.MOURA, Fernando & VICENTE, Antônio. Jackson do Pandeiro: o rei do ritmo. São Paulo, Ed. 34, 2001.RAMALHO, Elba Braga. Asa branca – Um estudo poético-musical. Humanidades – Revista de Humanidades e Ciências sociais. Ano 1. No. 1. 1999, pp. 17-24.RATTS, Alecsandro JP. Imagens da seca na MPB. Boletim Raízes N1o. 24, Fortaleza, IMOPEC – Instituto da Memória do Povo Cearense, p. 8. VIEIRA, Hermes. Poemas do Nordeste. Teresina, S/Ed, 198?. Discografia ALTINHO, Jorge. 1984. Vida Viola. RCA Camden.GIL, Gilberto. 1975. Refazenda. Philips. GONZAGA, Luiz e FAGNER, Raimundo. ABC do Sertão- Gonzagão e Fagner 2. 1988. BMG Ariola. GONZAGA, Luiz. 2001. Luiz Gonzaga ao vivo – volta pra curtir (Gravações de 1972). BMG/RCA.SECA, Volta.2000 Cantigas de Lampeão. INTERCD Gravações e Edições Musicais Limitadas, 2000. Gravado originalmente em 1957.[1] Outra forma de expressa musical que tem sido tratada como regional são as chamados worksongs, canções de trabalho, que, no Brasil, são encontradas em diversas ”regiões”. Em Goiás temos o exemplo das fiandeiras. A conhecida Asa Branca era uma canção de trabalho que se cantava nas colheitas de algodão (RAMALHO, 1999). Essa canção após modificações de algumas estrofes, transformou-se numa canção símbolo do Nordeste.

Além do refrão de Mulher Rendeira (que consta como autoria do cangaceiro/músico Volta Seca), um outro exemplo clássico do Nordeste de worksong é a música o Vendedor de Caranguejo: Caranguejo Sá / Caranguejo Sá / Apanho ele na lama / E trago no meu caçuá / Eu perdi a mocidade / Com os pés sujo de lama / Eu fiquei analfabeto / Mas meus filhos criou fama / Pelo gosto dos meninos / Pelo gosto da muié / Eu já ia descansar / Não sujava mais os pés / Os bichinhos estão criados / Satisfiz o meu desejo / Eu podia descansar / Mas continuo vendendo caranguejo.[1] Resultados preliminares de pesquisa em andamento originada na disciplina Teoria da Região e Regionalização, ministrada pelo prof. Dr. Alecsandro JP Ratts no Instituto de Estudos Sócio-ambientais da Universidade Federal de Goiás.[2] Carlos Augusto F. Monteiro, em O mapa e a trama, colige ensaios geográficos que têm a literatura por foco, escritos entre 1987 e 1998. Rogério Haesbaert analise a identidade regional de gaúchos e nordestinos, através da poesia, passando ligeiramente pela música. Bernardo M. Fernandes propõe uma metodologia para a utilização da música no ensino de Geografia. Dias e Oscar Sobarzo (2002) abordam as músicas caipiras.[3] Como procedimento metodológico partimos de um esquema em que distinguimos: canção, compositor(es)(as), intérprete(s), contexto (de surgimento da canção, destacando a primeira gravação), e aspectos da região que são abordados na canção (naturais, econômicos, políticos, históricos e/ou culturais).[4] Observamos que não existe propriamente um ritmo denominado forró, palavra de origem controversa, e sim um evento. No Nordeste se fala em “ir ao forró” ou “dançar forro”.[5] Sobre Luiz Gonzaga ver: DREYFUS, 1997. A respeito de Jackson do Pandeiro, consultar: MOURA & VICENTE, 2001. posted by Radio Poran at 06:22 0 comentarios Sexta-feira, Dezembro 28, 2007
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LULA NO IMAGINÁRIO POPULAR


Petista viera personagem de cordel RECIFE - Durão ou sensível, Lula caiu no gosto dos cordelistas. Em Recife, o folheto “Lula, um operário no poder",(1) de Guaipuan Vieira, vende como água, com versos como “Hoje Lula é presidente/ Do Brasil do excluído/ Que espera por mudanças". Já em Fortaleza, Antônio Klévisson Viana emplacou três edições do livreto “A grande vitória de Lula. O Brasil sem medo de ser feliz". “Lula tem todas as características de personagem de cordel. Para nós, é um herói, o plebeu que virou rei", disse Viana. Rei ou plebeu, os fãs podem até carregar na lapela o plebeu que virou rei: nas feiras de artesanato do Nordeste virou febre o Lulinha, um bonequinho-broche em papel machê. Na opinião do publicitário Rodrigo Leão, diretor de criação da W/Brasil, uma das principais agências do país, Lula tem a embalagem certa com o conteúdo certo para os brasileiros. Lula é pop, segundo ele, porque é a cara do povo. Além de ter uma noção clara de marketing, ocupando espaços importantes, Leão lembra que o PT é o único partido que virou camiseta: “A origem de Lula e o que ele defende são sinais muito claros. E, em comunicação, clareza é fundamental. Nesse sentido, a figura do Lula é uma embalagem que combina com a mensagem. Lula é o que a embalagem oferece", avalia.

Para o público, Lula é pop, segundo Leão, por causa do seu comportamento e das suas atitudes: “Na cultura pop brasileira dos últimos 40 anos, desde antes da ditadura militar, sempre houve um 'Eu sou contra o Governo'. O brasileiro era um e o Governo era outro. O Lula furou um pouco essa barreira do eles lá e nós cá". Para explicar a popularidade do presidente, o diretor de criação compara Lula ao ex-presidente Fernando Henrique. “A falta de polimento que ele tem representa os brasileiros melhor do que um presidente mais sofisticado, como Fernando Henrique. Fernando Henrique representa o Brasil com sofisticação. O Lula é uma representação mais natural, menos elaborada. Por isso, causa tanta emoção". Apesar do sucesso, o publicitário duvida que Lula, no poder, seja um bom garoto-propaganda, já que os políticos sempre causam alguma desconfiança nos cidadãos: “Preferiria que Lula fosse um ótimo garoto-propaganda após sair do Governo. Isso ia significar que ele foi um ótimo presidente".E-Mail: politica@hojeemdia.com.br Fonte: Jornal HOJE -BH,19/01/2003

(1)O primeiro cordel publicado sobre Lula

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